CARLOS MONTEIRO: QUEM CONTA UM CONTO, CONTA DOIS

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Por Carlos Monteiro*

Atualmente, como também comentou a querida jornalista Cecília França da Rede Lume de Jornalistas, contamos os contos de réis, de reais e os vinténs, contamos até os centavos do porquinho.

Aos sons dos bandolins e das gargalhadas.

Tenho um amigo engenheiro, dono de uma pequena construtora soteropolitana. Amizade feita em nossos tempos de Ceará. Ele baiano, eu carioca. Surtia bom papo nos bares que frequentávamos. Tínhamos um grupo, às quartas à noite, que se encontrava no Boteco da Antônio Sales, xadrez de azul bebê e branco nos azulejos,  para uma conversa fora e um chope dentro, tudo regado a rodadas de deliciosas empadas de palmito, que voavam sobre nossas cabeças, oferecidas pelos garçons. Uma espécie Belmonte, aliás, creio que o de cá copiou o de lá.

Como o mundo gira e a Lusitana roda, provavelmente atrás do Gato Preto, eu voltei para o Rio e ele para Salvador. Sempre mantivemos contato e, em nossas viagens entre o Lacerda e o Pão de Açúcar, era de lei nos encontrarmos para fazer uma baratona. Lá com direito ao Porto do Moreira e aqui pelo velho Braca.

Passaram-se anos, muitos anos e o Fernando se casou com uma carioca, veio o rebento e suas vindas à Cidade Maravilhosa passaram a ser quinzenais. Mantivemos a tradição, a cada meia lua inteira, uma rodada de chope em um bar do Leblon sem direito a baratonar. Já não tínhamos mais pique de antes, o compositor dos destinos, tambor de todos os ritmos, já não era tão extenso e o fígado insistia em não colaborar com a prática atlética de arremesso de copos. Limitávamos o número de calderetas e de bolinhos de bacalhau.

Num desses encontros, por conta de uma reunião alongada, discutindo o trem das cores do ‘saia e blusa’, dupla central que seguiria para aprovação do cliente ainda naquela noite, me atrasei mais de trinta e um quarto do horário aprazado. Cheguei esbaforido, catei a mesa em que estava, pelo menos uns seis chopes à frente, e já fui bradando — Ô Paiva, faça o favor de me trazer depressa um chope, aliás traz logo dois que a sede é grande e uns bolinhos que a fome provoca. Nem me dei conta de quem estava ao derredor, aliás, nem me dei conta se a casa estava ou não cheia para um meio de semana.

Papo vai, papo vem, soube das gracinhas do menino na escolinha recém-chegada, vi as fotos mais atuais, feitas pelo avô coruja naquela manhã, em pleno Baixo Bebê, soube como andava o mercado em terras de Caê, Carybé e Caymmi, discutimos futebol, política até chegamos à história de um amigo comum que, após concluir um curso específico de pilotagem em helicópteros cargueiros, resolveu conferir se Shakespeare, em Hamlet, tinha razão ou não. Mudou para a Dinamarca.

Começa ali uma análise filosófica etílica existencial de frases prontas iniciando, obviamente, pelo ‘fez bem ou não?’. ‘É frio demais’, ‘vai ganhar em dólares’, ‘será que a família se adaptará?’… Fernando me sai com a velha máxima: — Carlos, tudo tem um lado bom e um lado ruim, no que retruquei imediatamente: — Tudo não! Tem o disco do Oswaldo Montenegro cujo dois lados são ruins! A expressão do meu camarada foi de susto, entremeada por um sorriso de canto de boca e um, quase, engasgo com o chope. Estranho, começou a fazer movimentos ritmados com as sobrancelhas para cima e para baixo que evoluíram para o queixo e encimaram a cabeça. Parecia acometido por um cacoete repentino que beirava o esdrúxulo.

Eu, delicado como nunca, fui logo afirmando: — Tu tá bêbado, né? Resposta de bate-pronto: — Não, mas você deve, só pode! Isso já às gargalhadas que acompanhavam os movimentos dos olhos, sobrancelhas, queixo e cabeça, agora, acrescidos do indicador apontando para trás de mim. Resolvi conferir o motivo do frouxo de rir e lá estava: cabelos longos quase brancos, barba cerrada e um casal à mesma mesa, talvez Léo e Bia, o próprio. “Se fosse resolver/iria te dizer/foi minha agonia…//… E sem que se perceba a gente se encontra/pra uma outra folia…”.

O que dizer nessa hora para alguém que te olha como se você estivesse no centro de um planalto vazio? Nesses momentos o melhor é calar, fazer aquela cara de paisagem e disfarçar à francesa. Mas eu não segui a regra, deixei o soneto de lado e fui pela emenda do: ‘claro que isso é uma brincadeira, talvez de mau gosto. Gosto muito de suas músicas. A minha preferida é “Amanheceu, peguei a viola” e desandei, desafinadamente, a cantarolar: “Amanheceu, peguei a viola/Botei na sacola e fui viajar//Sou cantador e tudo nesse mundo/Vale pra que eu cante e possa praticar…”.

Não entendi por que meu amigo me deixou duas rodadas sem jogar quando veio ao Rio nos meses seguintes.

 

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca que iniciou carreira no “Jornal dos Sports”, “História e Glória do Rock” e “Revista O Cruzeiro”. Tem três livros publicados sobre o Rio. É flamenguista e portelense, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa. É autor das fotos e dos textos publicados nesta seção.

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