MITOCRACIA

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Por Jean Pierre Chauvin*

No princípio era a verborragia desregrada.

Mas, como alguns acharam isso divertido e pouco, o regime da falácia passou a ser sustentado por Pai, Filhos e Espíritos sem alma. Em muito menos tempo que os patriarcas da cristandade, consolidaram a nova religião e seus dogmas. Desta feita, não houve milagres, melhores exemplos, nem ensinamentos; somente aparições: vez por outra, programas de tevê, jornais e revistas cometeram a imprudência de focalizar o estúrdio sujeito sob os holofotes e letras redondas da chamada grande mídia.

Paródia chinfrim dos que pregaram melhor, muito antes deles, a seita do Pai-de-hoje também parece ter começado com onze ou doze apóstolos, quase todos protegidos pela barganha e o jetom; mas logo a dúzia oportunista virou centena de milhar e contagiou milhões, pois cada um dos adeptos se especializou em pescar novas ovelhas para o rebanho, em nome da pátria (que é de todos, menos nossa), da modernidade (que implica toda sorte de regresso) e da moral (que acusa todos, mas protege filhos, amigos e demais comparsas).

Agora que a capital do país foi transferida para Miami; que o povo de cá não mais se importa em ser governado por chefes do estrangeiro; que o discurso anticorrupção só se aplica aos adversários; que os poderes paralelos dizem o quê, como e quando fazer; que a ciência foi nivelada ao estatuto do achismo; que a opinião rasteira virou argumento; que o professor, o cientista e o jornalista viraram targets dos negacionistas; que a coisa pública foi demonizada, certamente vamos em melhor companhia.

A mitocracia é a mitomania em máxima escala. O primeiro sintoma do distúrbio é ser indiferente a qualquer causa que não seja a própria. O segundo consiste em afirmar barbaridades aos berros. O terceiro está em disputar com adeptos e comparsas quem mente mais, em nome de Deus, Mercado, Brasil, Liberdade, Povo, Coragem, Mudança, Honestidade, Lisura e demais quimeras.

Mas ainda há uma virtude que se sobrepõe às outras. Como só tem olhos para o lucro, a arma, a discórdia, as fakenews e o pai-de-todos, o mitocrata não vê sentido em consultar livros, comparar jornais ou verificar a procedência do que inventa, nega e compartilha.

Não fosse assim, recomendaria aos súditos do patriarca-de-ocasião que conferissem o que Sigmund Freud demonstrou em O futuro de uma ilusão (sobre as origens das religiões, alimentando a busca dos fiéis por um pai primordial) e o que Jacques Lacan confirmou em Os Nomes-do-Pai (sobre as múltiplas formas de representação da autoridade).

Porém, supondo que os mitocratas prefiram ficção à ciência, talvez fosse o caso de sugerir que folheassem O mulo, de Darcy Ribeiro – obra muito extensa, bem reconheço; mas leitura conveniente. Narrado em primeira pessoa, o romance traz as glórias e desventuras de Philogônio, um latifundiário decadente que perdeu tudo menos a sanha de mandar, mentir e meter bala.

Já pensaram se este sujeito brotasse do papel, que rival sem páreo ele seria?

 

*Jean Pierre Chauvin é professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). O presente artigo foi publicado originalmente no Jornal da USP.

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