BRASIL: VIOLÊNCIA CONTRA O MEIO AMBIENTE E SEUS DEFENSORES

0

Do Portal ONU Mulheres

A situação das defensoras e defensores ambientais no Brasil e em toda a América Latina é alarmante: a região é uma das mais perigosas e violentas para essas pessoas. Em sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em 2021, a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, demonstrou preocupação com a situação: “Em toda a região, estou preocupada com os ataques contínuos – incluindo assassinatos – contra ativistas ambientais, pessoas defensoras dos direitos humanos e jornalistas, bem como o uso indevido das leis penais para silenciar vozes críticas.” 

Para lidar com uma questão central do século 21 – a crise climática e ambiental- é preciso abordar as desigualdades sistêmicas que persistem.  A Ação Feminista por Justiça Climática é uma das Coalizões de Ação com intensa programação no Fórum Geração Igualdade, que mobiliza governos, mulheres, organizações feministas e de juventude, organizações internacionais e o setor privado para catalisar a ação coletiva e proporcionar um progresso concreto na igualdade de gênero. 

A comunicação e o jornalismo comprometidos com a igualdade de gênero contribuem para que defensoras e organizações ambientais tenham cada vez mais reconhecimento, presença nos espaços de decisão e capacidade de atuação, sobretudo em um contexto em que mulheres e meninas estão sub-representadas no avanço da justiça climática e ambiental em todos os níveis e setores, desde o planejamento a nível nacional ou comunitário no setor público, até nas finanças climáticas e na energia limpa.  

Para mudar essa realidade, jornalistas, comunicadoras e comunicadores têm um papel fundamental. Segundo Daniela Chiaretti, repórter especial de meio ambiente do Valor Econômico, “para reduzir os riscos, todas as pessoas precisam estar informadas sobre esse assunto. E o modo com o qual a mídia tradicional e comunicação comunitária têm influência no modo como a sociedade lida com o problema.” Daniela mediou o painel “O papel da comunicação na proteção de defensoras e defensores ambientais”, realizado em outubro de 2020 por meio  da parceria entre Embaixada da França no Brasil, União Europeia, ONU Mulheres (por meio do projeto Conectando Mulheres, Defendendo Direitos), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos (ACNUDH), Fundo Casa Socioambiental, e WWF Brasil. O painel fez parte de uma série webinários sobre defensoras e defensoras ambientais, conduzidos entre setembro e outubro de 2020 por esta parceria. Além de Daniela, participaram do evento Erisvan Guajajara, Jjornalista e um dos fundadores da Mídia Índia, Brasil; Dora Montero, coordenadora do Tierra de Resistentes e presidente do Consejo de Redacción, Colômbia; e Milagros Salazar, jornalista e diretora do Convoca.pe, Peru. 

Ativismo ambiental tem rosto e história – Dar visibilidade às histórias de defensoras e defensores ambientais e às suas agendas contribui não só para que determinados temas alcancem o debate público, como também mobiliza tomadores e tomadoras de decisão: “É preciso dar visibilidade a determinados temas que muitas vezes só se escutam através da sociedade civil”, relata Milagros Salazar. 

Na experiência da iniciativa Tierra de Resistentes, que documenta casos de violações de direitos de defensores e defensoras ambientais em 10 países da América Latina, “é preciso registrar a história para preservar a vida dessas histórias (…) No caso de Bertha Cárceres, por exemplo, não contamos a história de Bertha, mas a de sobreviventes, contamos o que defendem”, diz Dora Montero. Nem sempre, no entanto, é possível documentar absolutamente tudo que se deseja enquanto jornalista: “Em momentos de força e valentia muitas fontes se expõem, mas precisamos dizer para as pessoas que essa exposição pode colocá-las em risco. O jornalista vai até o local para contar a história, mas as pessoas continuam ali. O que vai acontecer com elas quando formos embora? Quais riscos enfrentarão? É preciso compromisso com as pessoas que ficam lá. É uma premissa: em primeiro, preservar a vida. Depois, contar a história”. 

Identificar riscos – Para além das histórias e das notícias que cobrem a atuação e as violências sofridas por defensores e defensoras ambientais, o jornalismo de dados tem contribuído diretamente para estratégias de proteção dessas pessoas: “As bases de dados dos ataques às defensoras e defensores ambientais da América Latina são importantes para identificar os padrões: quem são os mais afetados, quais as razões dos ataques. Usamos os bancos de dados no jornalismo investigativo para identificar padrões. As bases nos ajudam a identificar que não são fatos isolados”, conta Milagros. 

Comunicação como ferramenta de ação – Em determinados contextos, o risco que jornalistas enfrentam ao denunciar violações de direitos é bastante próximo ao que enfrentam as próprias defensoras e defensores ambientais. Para algumas comunicadoras e comunicadores, como no caso daquelas e daqueles que trabalham na Mídia Índia, “o perigo é duplo: porque além de jornalistas e sofremos racismo por sermos indígenas”, afirma Erisvan Guajajara. 

Para ele, a comunicação “é um espaço que por muito tempo foi negado aos povos indígenas. Usamos a comunicação como ferramenta de luta, mostramos o protagonismo indígenas. Fazemos desse território digital um território indígena. A cada novo ataque, novas estratégias de luta – e a comunicação tem sido importante neste sentido.” 

Protagonismo das mulheres – Muitas vezes, a liderança das mulheres em defesa dos direitos ambientais também não é reconhecida; elas são vozes silenciadas ou preteridas pela cobertura midiática dos temas ambientais. “Em muitas comunidades são os homens que normalmente são entrevistados, mas há sempre ao menos uma mulher que os acompanha e que tem papel importante na comunidade, mas pela que pela dificuldade do idioma não fala com a gente. É preciso fazer um esforço para dar voz a essas mulheres, para fazermos do jornalismo um serviço de utilidade pública.” 

A Coalização de Ação Feminista pela Justiça Climática da  campanha Geração Igualdade se compromete à transição para uma economia verde e inclusiva até 2026, que reconhece a conexão entre mudanças climáticas e justiça de gênero, e protege e amplifica as vozes de indígenas e outros grupos, incluindo defensores que atuam na linha de frente, tanto nos movimentos sociais quanto nos espaços político-institucionais. 

Mulheres e meninas sempre estiveram na vanguarda dos movimentos que exigem justiça ambiental e climática. A igualdade para todas as mulheres e meninas em toda a sua diversidade fortalece a capacidade coletiva de enfrentar a crise climática, por exemplo. 

O Fórum Geração Igualdade acontecerá entre os dias 7 e 10 de julho, na França. Participe: onumulheres.org.br/forum-geracao-igualdade 

Share.

About Author

publicitta

Leave A Reply