QUEM VAI PATROCINAR A COVA AMÉRICA 2021?

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Por Carlos Franco

O anúncio feito ontem, dia 31 de maio de 2021, pela Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) de que a Copa América 2021 será disputada no Brasil, epicentro da pandemia Covid-19 no continente com a proximidade de 500 mil mortes, 500 mil vidas ceifadas, 500 mil histórias, 500 mil amores e milhões de impactados, com 19 milhões de brasileiros e brasileiras, crianças, adultos e idosos ultrapassando a linha da pobreza e na fronteira da morte pela fome, deixa uma pergunta no ar: qual marca estará disposta a atrelar sua imagem ao torneio?. 

Empresas que se arriscarem terão de ter caixa extra para a gestão de crises, evidentemente, pois correm o sério risco de terem suas imagens e reputação arranhadas pelo evento. E as poucas que até agora mostraram a face são coadjuvantes no mundo dos negócios. E as que se arriscarem, se atrelando a este jogo macabro, estarão jogando o esforço de construir elos com os consumidores enquanto ambiental e socialmente responsáveis na lata do lixo.

Aqui não se trata de boicote. Este funciona com precisão em países europeus, a exemplo da Inglaterra, onde a maioria se recusou a comprar carne bovina brasileira quando as queimadas e a destruição de grandes áreas da floresta amazônica ocupavam o noticiário e a rede Tesco, a maior do Reino Unido de Elizabeth II, se recusou a comprá-la e servi-la aos consumidores. Só que na América Latina, sobretudo no Brasil dada à sua diversidade e o negativismo da realidade, a bolha em que muitos brasileiros se encontram por falta de conhecimento da realidade ou mesmo dogmas que vão contra à civilização e estão na fronteira da barbárie, ainda são empecilhos às ações de boicote.

Só que, no mundo, como no Brasil, as marcas, cada vez mais, querem estar próximas dos consumidores e buscam construir uma imagem sólida de reputação dos seus produtos atrelados às responsabilidades sociais e ambientais até como parte do esforço para o enquadramento no propalado conceito ESG (Environmental, social and corporate governance), ou seja responsabilidade social, ambiental e de governança corporativa. O conceito tem se tornado moeda de troca na relação das empresas com investidores, agências de fomento globais (que oferecem crédito a fundo perdido e outros a custos menores do que os da banca privada) e mesmo bancos, cientes dos riscos em dar crédito a projetos de necropolítica como a Copa América 2021, que muitos já tratam adequadamente como Cova América 2021.

A imagem é correta porque os patrocinadores deste evento estarão jogando suas imagens e reputações literalmente na cova e à mostra dos olhos do mundo. O custo de ressuscitar a imagem é sempre elevado. Empresas como a Exxon Mobil, Nike e a Union Carbide, que se esfacelou e foi incorporada na bacia das almas do gás tóxico laranja que despejou na indiana Bhopal pela The Dow Chemical Company, oferecem grandes lições sobre estes custos e os desgastes deles decorrentes.

Com a sua visível perda de receita publicitária, dependente cada vez mais de aportes governamentais, o SBT busca com a Copa América 2021 tirar o pé da cova em que se encontra com a perda de renda justamente do público com o qual estabelece diálogo e que está sendo, dia a dia, jogado na fronteira da miséria e da fome. É nesse cenário desolador que acompanhamos o desfecho do macabro torneio embalado por hino prá lá de xinfrim da Sony Latam Music apresentada no mês passado, quando Awin, outra plataforma de rede social de vídeos, com dificuldade de conquistar conteúdo, também se atrelou à Conmebol. Sony Music hoje enfrenta queda de receita, com a proliferação das redes sociais e das composições de diferentes tribos fora do seu radar, e também do novo mercado, o NFT, em que criadores das mais diferentes modalidades de arte e cultura oferecem seus produtos em troca de criptomoedas. O mundo gira e a Lusitana roda num caminhão cada vez mais veloz. A Copa América é apenas uma curva arriscada e perigosa, uma pedra no caminho das marcas que querem chegar ao topo ou, pelo menos manterem imagem e reputação para serem desejadas e admiradas.

Quem quer o coronavírus? Quem quer morrer? Essas são as perguntas-chaves em relação à Cova América 2021. Até porque, neste circo de horrores que vivemos hoje, a estrela é o coronavírus que, implacável, ceifa vidas e, agora, promete ceifar a reputação e a imagem de empresas que se atrelarem ao seu evento macabro.

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