ESTAMOS INDIFERENTES ÀS MORTES POR COVID?

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Por Gerson Yukio Tomanari*

O momento é crítico. Enquanto o País se depara com números aterrorizantes de mortes por covid-19, uma parte da população se mostra insensível à tragédia. Como entender esse aparente contrassenso? Pesquisas que analisam experimentalmente o comportamento ajudam a refletir sobre essa questão.

Em um experimento, pombos podiam bicar dois discos iluminados por cores diferentes, dispostos lado a lado, que acionavam o comedouro. Bicadas no disco à esquerda davam 80% de chance de liberar a comida, enquanto bicadas à direita davam 20%. Diferentes valores de probabilidades complementares, em diferentes sequências, foram testados. Para todos eles, os resultados foram inequívocos em mostrar que pombos distribuíam suas bicadas entre os dois discos na proporção correspondente às probabilidades de acesso ao alimento.

Vemos que as pessoas se colocam sob risco de contaminação mais do que se protegem. É preciso perceber que são escolhas, produto das contingências a que estão expostas.

Por um lado, temos as necessidades primárias humanas de socializar e obter recursos para a própria sobrevivência. Por outro, precisamos nos submeter às restrições impostas pela pandemia como forma de preservar vidas. São contingências aversivas; por isso, é compreensível que parcela significativa da população não possa aderir a elas por razões econômicas ou religiosas. Nesse caso, resta às lideranças a decisão de exercer coercitivamente o papel disciplinador restritivo. Agora, difícil mesmo de compreender é o comportamento de pessoas que poderiam evitar aglomerações, manter o distanciamento social, usar máscaras e fazer a higiene frequente das mãos —mas não o fazem.

Nesses casos, a experiência de cada um, aquela capaz de modificar o comportamento, não se mostra afetar pelos números assustadores da pandemia. Possivelmente, a atitude dessas pessoas deve estar sendo guiada essencialmente por suas experiências individuais probabilísticas.

Estudos têm estimado que quase metade das pessoas que se contaminam permanece assintomática, e a maior parte, ainda que apresente sintomas, estes são leves ou moderados e não requerem hospitalização. As estatísticas oficiais mostram que, no Brasil, do total da população, há 5% de casos confirmados e 0,12% de óbitos. É a experiência cotidiana, operacional e concreta, refletida por essas porcentagens, que faz a doença parecer distante, gerando comportamentos pouco cautelosos, sobretudo quando grupos isolados de menor risco olham unicamente para si próprios.

O comportamento é afetado por suas consequências, tão mais afetado quanto imediatas estas sejam. Por isso, o intervalo entre a contaminação e os sintomas reduz substancialmente o papel da covid-19 em evitar o contágio. Os efeitos do vírus são observados no outro, raramente na pele de quem observa.

E, entre os que já tiveram a doença ou já foram vacinados, o papel transmissor que carregam é invisível.

A vacina nos dá esperança. Controlará eficazmente a pandemia, mas terá efeito paradoxal ao longo do percurso. À medida que a vacinação reduzir as internações e as mortes, maior será a parcela da população menos propensa a aderir às medidas protetivas.

Felizmente, temos canais sérios e confiáveis de comunicação que mostram os dados alarmantes, os dramas dos doentes, a tragédia dos profissionais da saúde, atuando de forma instrucional sobre as pessoas capazes de trazer para si aprendizados obtidos por meio da observação do outro.

Planejar e executar ações que beneficiem o coletivo em detrimento do individual imediato é uma engenharia que depende de lideranças competentes. Na ausência delas, é fundamental reafirmarmos incansavelmente que os benefícios coletivos só serão obtidos com contenções individuais imediatas.

Nossa evolução como espécie passou por desenvolvimento em sociedade, criação de códigos pautados na convivência, no aprendizado, na geração e na transmissão de culturas. Somos capazes de transcender a experiência probabilística isolada, compreender a magnitude dos efeitos da pandemia e agir em benefício da coletividade com regras socialmente estabelecidas que atestem a nossa civilidade.

*Gerson Yukio Tomanari é professor titular do Instituto de Psicologia e superintendente de Assistência Social da Universidade de São Paulo (USP). O presente artigo foi publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 1º/5/2021 e republicado pelo Jornal da USP, instituição a que pertence o autor.

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