CARLOS MONTEIRO: SAMBA LUSITANO

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Por Carlos Monteiro*

Neste 25 de abril, cravos e alecrins

 

SAMBA LUSITANO

As armas e os Barões assinalados

Que da Ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana,

Em perigos e guerras esforçados,

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo reino, que tanto sublimaram;

 

Sabe, no fundo eu sou um sentimental

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,

trucidar

Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora…

 

Meu coração tem um sereno jeito

E as minhas mãos o golpe duro e presto

De tal maneira que, depois de feito

Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito

É que há distância entre intenção e gesto

E se o meu coração nas mãos estreito

 

Assombra-me a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta

Ostento a agulha empunhadora à proa

Mas o meu peito se desabotoa

 

E se a sentença se anuncia bruta

Mais que depressa a mão cega executa

Pois que senão o coração perdoa

 

Quatro paredes caiadas

Um cheirinho à alecrim

Um cacho de uvas doiradas

Duas rosas num jardim

Um São José de azulejo

Mais o sol da primavera

Uma promessa de beijos

Dois braços à minha espera

É uma casa portuguesa com certeza

É com certeza uma casa portuguesa

 

Se uma gaivota viesse

Trazer-me o céu de Lisboa

No desenho que fizesse

Nesse céu onde o olhar

É uma asa que não voa

Esmorece e cai no mar

 

Dormi com eles na cama

Tive a mesma condição

Povo, povo, eu te pertenço

Deste-me alturas de incenso

Mas a tua vida não

 

Povo que lavas no rio

Que talhas com o teu machado

 

O Fado nasceu um dia

Quando o vento mal bulia

E o céu o mar prolongava

Na amurada dum veleiro

No peito dum marinheiro

Que, estando triste, cantava

 

Ai, que lindeza tamanha

Meu chão, meu monte, meu vale

De folhas, flores, frutos de oiro

Vê se vês terras de Espanha

Areias de Portugal

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 

Meu Portugal querido, minha terra

De risos e quimeras e canções

Tens dentro em ti, esse teu peito encerra,

Tudo que faz bater os corações!

 

Tens o fado. A canção triste e bendita

Que todos cantam pela vida fora;

O fado que dá vida e que palpita

Na calma da guitarra aonde mora!

 

Tu tens também a embriaguez suave

Dos campos, da paisagem ao sol poente,

E esse sol é como um canto d’ave

Que expira à beira-mar, suavemente…

 

Tu tens, ó Pátria minha, as raparigas

Mais frescas, mais gentis do orbe imenso,

Tens os beijos, os risos, as cantigas

De seus lábios de sangue!… Às vezes, penso

 

Que tu és, Pátria minha, branca fada

Boa e linda que Deus sonhou um dia,

Para lançar no mundo, ó Pátria amada

A beleza eterna, a arte, a poesia!…

Luiz de Camões/Ruy Guerra/Chico Buarque/Arthur Vaz Da Fonseca/Reinaldo Ferreira/ Vasco De Matos Sequeira/Alain Oulman/Alexandre O’Neill/Pedro Homem de Mello/José Régio/Alain Oulman/Fernando Pessoa/Florbela Espanca

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca que iniciou carreira no “Jornal dos Sports”, “História e Glória do Rock” e “Revista O Cruzeiro”. Tem três livros publicados sobre o Rio. É flamenguista e portelense, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa. É autor das fotos e dos textos publicados nesta seção.

 

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