O DIA EM QUE O PONTO FRIO VIROU PONTO: >

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Por Carlos Franco

Hoje quem passou por uma das 160 lojas do Ponto Frio espalhadas pelo país ficou, no mínimo, espantado tanto quanto os funcionários estreando novos uniformes. O  pinguim da marca se mandou, possivelmente para a  Antarctica, o continente gelado e não a cerveja da AmBev. É que hoje, 23 de abril, Dia de São Jorge, feriado na cidade do Rio de Janeiro onde a rede surgiu em 1946, Ponto Frio deixou de ser Ponto Frio e virou algo estranho e inimaginável, difícil de grafar quando não se é nerd ou não se vive no universo touch: “Ponto : >”. Isso mesmo: ponto mais os dois pontos e o sinal de maior, sendo que os dois últimos pretendem simbolizar o bico do pinguim que se mandou.

No mundo da comunicação comercial, mesmo que tenham impacto para os consumidores, algumas mudanças ocorrem porque  tipologia, cor e formato podem envelhecer, mas a maioria delas são sutis. Já outras são decorrentes de, completado um prazo de transição, concluída uma aquisição por outro grupo, a marca tem que sumir ou ser reciclada em uma nova, incorporada por outra, como ocorreu com o Nacional, que sumiu do mapa ou o Real. Alguém se lembra destes dois bancos?. O Nacional é possível porque a morte do piloto Ayrton Senna acabou por imortalizá-lo na jaqueta e no capacete. Já o Real, um dos primeiros bancos a falar de sustentabilidade, acabou engolido pelo ABN Bank e este pelo Santander. Foi-se. Deles restou apenas a pintura do Van Gogh na parede (que remete à origem do ABN) e um grupo seleto de clientes sob esta chancela.

A mudança de nome e logomarca do Pontofrio, tanto faz agora se junto ou separado, ficou a cargo da VMLY&R, que tem experiência neste tipo de sopa de letrinhas, pois já foi VML que depois se juntou com Y&R, que já tinha sido Young&Rubicam. Confuso? Pode ser para um comum mortal, mas os criadores de sopas de letrinhas estão certo de que elas fazem o maior sucesso, mesmo que se tornem impronunciáveis, o dono é mais pragmático e assina apenas WPP.

No caso do Ponto Frio só não ousaram em matéria de slogan, ele é este mesmo que você está imaginando “Direto ao Ponto : >”. Pelo visto, a única expressão, tirando, é claro o dois pontos e o símbolo de maior, que vem sendo usada desde os tempos que Machado de Assis morava no bairro carioca do Cosme Velho e Olavo Bilac frequentava os salões da Colombo, na rua Gonçalves Dias, bem perto da rua do Ouvidor nos idos do século 19 e nas proximidades de uma das primeiras lojas do Ponto Frio inaugurada no século 20. 

Em comunicado à imprensa, a diretora de marketing e marca da Via Varejo, Ilca Sierra, tece loas à mudança: “Demos um grande salto, a marca ficou mais jovem, mais moderna e inovadora. E também trouxe mais protagonismo a uma personalidade irreverente, bem-humorada e focada no digital”. 

E o trabalho para essa virada parece mesmo ter sido hercúleo, segundo informa no mesmo comunicado Abel Ornelas que ostenta o título de CCO da Via Varejo, outra sopa de letrinhas que quer dizer diretor de operações, aquele que comanda as operações do escritório da firma: “Fizemos algo inédito na história da Via. Reinauguramos as mais de 160 lojas em um único dia. Todo nosso time de venda já recebeu os uniformes e crachás com a cara nova de Ponto : >” . Além disso, prossegue entusiasmado pela façanha, “o app e site da marca também já estão com os novos layouts e podem ser vistos pelos clientes”.

Por fim, a agência da sopa de letrinhas, a VMLY&R, informa que “seguindo o formato de criação por Design Sprint, o processo foi conduzido pelo grupo de design de inovação da Croma, um time de profissionais da Via Varejo e da VMLY&R. O logotipo do Ponto : >  parte da simbologia dos próprios pontos, que vem como uma conexão de ponto a ponto, permitindo novas possibilidades. A fonte utilizada foi criada exclusivamente para a marca e ressalta o ponto e as formas circulares. A palavra “frio” deixou de fazer parte da marca, sendo representada a partir de agora pelo pinguim estilizado :>”. 

Já estou com saudade do Pontofrio. Só de escrever sobre o novo ponto me deu uma canseira danada, talvez porque, como todo jornalista, eu sempre esteja atrás de novidades. Neste caso, não vi nenhuma, a não ser que a marca pudesse ter sido mais sincera informando, como ocorrem com muitas, que não poderia mais usar o nome tradicional da rede fundada por Alfredo Monteverde no pós-guerra e que foi trocando de mãos aos longo do tempo até chegar à Via Varejo. Aí sim, daria para entender.

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