A BOIADA DE BOLSONARO & SALLES

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Por Lúcio Flávio Pinto*

A Polícia Federal denominou de Handroanthus GLO a operação que desencadeou na divisa entre o Pará e o Amazonas, que resultou na maior apreensão de madeira extraída ilegalmente da história brasileira. É uma história tão rica em destruição da floresta que a própria árvore que deu nome ao país, o pau brasil, está ameaçada de extinção.

Na operação, realizada em dezembro do ano passado, a Polícia Federal localizou 43,7 mil toras de madeira nativas em vários pátios de estocagem abertos no meio da mata. O volume apreendido foi estimado pela PF – em cálculo conservador – em 131 mil metros cúbicos, no valor de 55 milhões de reais. Para transportar todas as toras seriam necessários 6.243 caminhões. A madeira seria suficiente para a construção de 2.620 casas populares.

A operação foi batizada com o nome científico do Ipê, Handroanthus, considerado a espécie mais explorada na Amazônia pelo seu valor comercial, o maior do mercado. O nome da operação também fez referência ao decreto presidencial do primeiro semestre de 2020, que autorizou a atuação das Forças Armadas na Garantia da Lei e da Ordem (GLO), para o combate ao desmatamento ilegal e a focos de incêndio na Amazônia.

Se a operação fosse executada poucos anos atrás, ela deveria ter se chamado Swietenia macrophylla, o nome científico do mogno da Amazônia, de valor superior ao do ipê. Sua área de maior concentração era o sul do Pará. Mas a caça à árvore foi tão selvagem que a espécie quase foi extinta.

Os devastadores da natureza seguiram exatamente na direção leste-oeste pela região central do Estado, até o local da apreensão recorde de toras em condição de embarque para serem transportadas para fora do Brasil.

Com a vigilância a partir do espaço, pelo uso de satélites, e a disponibilidade de helicópteros para chegar mais rapidamente aos pontos de desmate ou concentração ilegal de madeira, o método dos madeireiros piratas não pôde manter as práticas mais grosseiras do passado. Para os grandes extratores, o método agora é mais sofisticado.

Eles apresentam planos de manejo aos órgãos ambientais dos governos municipais, estaduais ou federais. Simulam a execução dos projetos aprovados e estendem seu raio de ação, mantendo ou não as fachadas de manejo sustentável. É o que caracteriza a sua presença nas áreas atacadas pela PF e o que levou à reação das suas entidades de representação.

Em notas de crítica e denúncia, elas acusaram a polícia de arbitrariedade, abuso de poder e ação nefasta sobre a atividade produtiva legal e de base científica, já que os extratores estariam cumprindo os planos de manejo apresentados e sob fiscalização oficial.

“Essa operação tira uma grande quantidade de material que abasteceria o mercado de madeira. Ainda estamos investigando, mas pelas dimensões das áreas e da apreensão. Não acreditamos que haja planos de manejo suficientes para toda essa madeira”, contestou o então superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, que comandou a operação, em entrevista ao O Globo.

Ao anunciar a operação, ele disse que a PF ainda estava analisando documentos e que ainda não era possível afirmar se madeira seria destinada à exportação, embora, considerando as espécies e a quantidade de madeira estocada, parecia evidente que o destino fosse mesmo o mercado internacional.

Essa conclusão era coerente com as informações que a PF do Amazonas e o Ministério Público Federal no Estado vinham acumulando desde 2017. Nesse ano, foi deflagrada a Operação Arquimedes, tida como a maior investigação já realizada sobre o assunto, que levou à investigação de 61 empresas; pelo menos 22 pessoas já foram denunciadas.

A ofensiva de dezembro começou no mês anterior, com a apreensão de uma balsa com três mil metros cúbicos ilegais de madeira em Parintins, do lado do Amazonas – o que levou a PF a passar para o lado do Pará, a fim de atacar o ponto de origem da conexão.

O esquema criminoso tem a participação de agentes públicos, empresários e “laranjas”, envolvendo o pagamento de propina para que servidores de órgãos de proteção ambiental autorizem a extração de madeira de planos de manejo fraudulentos. A autorização dá aos madeireiros acesso a créditos para comercializar a madeira tanto no mercado nacional quanto internacional.

A reação dos madeireiros era esperada. Mas não a do ministro do Meio Ambiente. Em tese, o mais interessado em preservar a ameaçada floresta amazônica, principalmente agora, quando os Estados Unidos começam a retomar a posição de liderança na proteção da natureza, desprezada por Donald Trump, tendo a Amazônia como item principal da agencia mundial do presidente Joe Biden. Ele já enfatizou que ações em favor da floresta amazônica são a melhor – ou a única – via para restabelecer a ponte com a diplomacia brasileira, que se atrelou a Trump com Bolsonaro & Araújo.

Ricardo Salles, porém, não se constrangeu em ir aos locais da apreensão e posar para imagens de um indisfarçável lobby pela liberação da madeira. De fato, com a retirada das forças armadas da área, justamente quando elas seriam indispensáveis para o escoamento das árvores dos diversos pátios.

Naturalmente, a retirada pode ser viabilizada quase imediatamente pelos madeireiros, com suas máquinas espalhadas pela região, antes que comecem a cair as chuvas do inverno amazônico, com maior intensidade a partir do próximo mês.

A reação do delegado Alexandre Saraiva foi na medida da ameaça sobre todo trabalho desenvolvido. Comparou:

“É o mesmo que um ministro do Trabalho se manifestar contrariamente a uma operação contra o trabalho escravo. Nunca tive notícia de um ministro do Meio Ambiente se manifestando contrariamente a uma operação que visa proteger a floresta amazônica. É um fato inédito que me surpreendeu”, disse Saraiva, à Folha de S. Paulo.

Foi o bastante para ser demitido e substituído da superintendência da PF, depois de mais de 10 anos como superintendente em Roraima, no Maranhão e no Amazonas.

Apesar da carta de sete laudas do presidente Jair Bolsonaro ao seu colega dos Estados Unidos, prometendo que em 2030 o desmatamento será zero na Amazônia (mas no mês passado foi o maior dos últimos 10 anos em março), ele e o seu ministro continuarão a fazer a boiada passar sobre a floresta, o homem e a própria Amazônia.

*O artigo foi publicado originalmente em Amazônia Real, que tem oferecido uma cobertura consistente e de qualidade do que acontece na região. Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014.

Além de colaborar com a agência Amazônia Real, Lúcio Flávio Pinto mantém quatro blogs, que podem ser consultados gratuitamente nos seguintes endereços:

lucioflaviopinto.wordpress.com – acompanhamento sintonizado no dia a dia.

valeqvale.wordpress.com – inteiramente dedicado à maior mineradora do país, dona de Carajás, a maior província mineral do mundo.

amazoniahj.wordpress.com – uma enciclopédia da Amazônia contemporânea, já com centenas de verbetes, num banco de dados único, sem igual.

cabanagem180.wordpress.com – documentos e análises sobre a maior rebelião popular da história do Brasil.

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