“QUEM ACEITA O MAL SEM CONTESTAR, COOPERA COM ELE”

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A frase de Martin Luther King Jr. (1929-1968), que dedicou sua vida à luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, abre carta da comunidade judaica estranhando a presença do médico, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib) e  do Conselho da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, Claudio Lottenberg, em jantar oferecido em São Paulo, na noite da última quarta-feira, dia 7 de abril de 2021, por empresários com peso inexpressivo no PIB (Produto Interno Bruto) ao presidente de extrema direita Jair Bolsonaro. Tanto porque o evento ocorreu no Yom Hashoá, dia em que lembramos as 6 milhões de vítimas do Holocausto nazista, comandado pelo então líder da extrema direita alemã Adolf Hitler, como porque naquele dia o Brasil contabilizava mais de 340 mil vidas perdidas pela Covid-19. Muitas dessas 340 mil vidas, 340 mil histórias, 340 mil amores que tocaram milhares, milhões de outras vidas, poderiam ter sido evitadas não fosse o negacionismo, a indiferença e o comportamento desrespeitoso para com a vida por parte do governo federal e sua desastrosa gestão da pandemia. Eis a carta assinada pelo Observatório Judaico de Direitos Humanos no Brasil Henry Sobel e o coletivo Judeus pela Democracia/São Paulo:

 

São Paulo, 08 de abril de 2021

Ao presidente da Confederação Israelita do Brasil, Sr. Claudio Lottenberg,
Às demais entidades da comunidade judaica brasileira

“Quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele”
Martin Luther King

É com indignação que tomamos conhecimento da participação do presidente da CONIB Sr. Claudio Lottenberg, no jantar promovido pelo presidente da República Jair Bolsonaro em São Paulo, no dia 7 de abril de 2021. Aquele não se tratava de um encontro protocolar entre o presidente da República e o presidente da CONIB, mas de uma reunião com empresários com o objetivo de reconstruir a base de apoio político ao governo, abalada desde que foi divulgado o posicionamento conjunto de diversos empresários em repúdio à maneira como o governo federal tem lidado com a pandemia. Dessa forma, a presença no evento indica possível confusão entre as agendas institucional e pessoal de Lottenberg.

A participação em um evento dessa natureza não condiz com o cargo de representante político de uma comunidade que se orgulha de ser plural, nem com uma entidade que se propõe, entre outros objetivos, a combater a intolerância. Por uma infeliz coincidência, a “confraternização amistosa” aconteceu em Yom Hashoá, dia em que lembramos as 6 milhões de vítimas do Holocausto nazista.

Desde 2018, diversos grupos da comunidade judaica se colocaram contra Jair Bolsonaro, em repúdio a seus ataques à institucionalidade, aos demais poderes da República, à imprensa, à sociedade civil organizada, aos direitos humanos, à memória do Holocausto e a qualquer voz de oposição. As ideias, falas e ações do presidente o colocam à margem do campo democrático brasileiro, pois partem sempre da violência, da intolerância, do repúdio à diversidade e da negação à ciência. Como o filósofo judeu Karl Popper nos ensina, não se deve tolerar o intolerante, sob o risco de ter demolido o espaço de convivência entre os diversos.

Para além de autoritário, o presidente Jair Bolsonaro é o maior responsável pelas mais de 340 mil vidas perdidas pela crise de saúde da Covid-19, por sua gestão errática e irresponsável da pandemia. A ausência de coordenação nacional, a falsa dicotomia entre economia e saúde, a negação da ciência, as críticas recorrentes aos protocolos sanitários mínimos e os estímulos à aglomeração colocam na conta do presidente as centenas de milhares de mortes, números dignos de grandes guerras da história mundial. A crueldade em rir e fazer chacota de quem padece da doença passa de qualquer limite aceitável, e a humilhação internacional pela qual o atual governo nos faz passar deveria ruborizar qualquer cidadão brasileiro.

O presidente já demonstrou em inúmeras situações a indisposição de mudar de comportamento. Não há cooperação possível com Jair Bolsonaro. Há apenas a cooptação. A presença do Sr. Cláudio Lottenberg no jantar, representando a CONIB, visa dar legitimidade à ideia de um apoio de judeus a um projeto político que vai contra os mais altos valores humanistas e democráticos, legados a nós pela tradição e história do povo judeu. Por isso, repudiamos a atitude irresponsável, ambígua e perigosa do Sr. Cláudio Lottenberg.

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