CARLOS MONTEIRO: SENDO O SOL

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Por Carlos Monteiro*

O dia amanheceu ‘Lupiciniano’, com doses filosóficas de Hegel. Havia no ar, em quantidades certas e equilibradas, um romantismo cristalino, entremeado de uma porção de ‘Fenomenologia do Espírito’, ou seria uma poção de encantamentos? Sempre penso que o Rio recebe doses reforçadas de fluidos mágicos, oriundos da Pedra da Gávea, vindos de uma dimensão paralela onde só existem o amor e a felicidade. Essa fórmula indelével paira sobre nós, emanada por um Merlin carioca que habita aquela esfera dimensional. Um Merlin, cujo chapéu ‘bruxesco’ é um boné, a túnica uma camiseta e bermuda e o cajado uma prancha de surf; ‘mermão’ puro. Ostenta o tal ‘dragão tatuado no braço’ Caetaneado.

O Rio esclareceu meio ‘moleque’, meio malandro, meio mandrião. Não no sentido exato das palavras, mas, naquela deliciosa maledicência tupiniquim-riodejaneirense em chiste, um certo desgabo, somado a uma malemolência um quê de Zé Pelintra. Rompeu, lentamente, vagarosamente o firmamento carioca, assim como se desvirginasse a madrugada, doce manhã.

O Sol, viva o Sol! – consciência, ao abrir caminho rumo à sua verdadeira existência, atinge um ponto onde se despoja de sua aparência fluídica e se torna sólido, erguendo, entre quatro paredes mágicas do firmamento, telúricas, pedras auriverdes e pélago. Bola ou bolha de fogo incandescente, tal bolha de sabão etérea do menino das bolas de gude. Talvez à espera da chegada do segundo Sol, puramente Laranjeiras e seu ‘All Star’, realinhando a órbita planetária.

Acordou Lupicínio, este Sol nosso de cada dia. Nos foi dado hoje! Era tanta luz que tive a leve impressão que cantarolava: “…A minha casa fica lá detrás do mundo/Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar/O pensamento parece uma coisa à toa/Mas como a gente voa quando começa a (brilhar)…”.

A cidade enamorada logo lhe responde languidamente, acabadiça diante de tanto brilho. Intensa luz: “…Entra, meu amor, fica à vontade/E diz com sinceridade o que desejas de mim/Entra, podes entrar, a casa é tua//Já que cansaste de viver na rua/E os teus sonhos chegaram ao fim/Eu sofri demais quando partiste/Passei tantas horas triste…”.

Desde as primeiras luzes, que anunciavam o amanhecer, o céu, costumeiramente em fogo, doirou-se exprimindo sua maior vocação: ser Rio! Rio de alegria e festa, de feli(z)cidade e de natureza esplendorosa, de imenso amor à Cidade Maravilhosamente Maravilhosa! O Rio é a libélula Aureliana.

As fragatas não poderiam escolher melhor cenário para o ensaio de seu sensual balé. As montanhas, solares em brilho, exaltam a nobreza desse espaço nomeado, por Monteiro Lobato, de “Almoxarifado de Deus”. O Sol, por sua vez, em malabares mil, apoia-se na “Parabólica Camará” no seu exercício diário de se equilibrar no topo do prédio, no topo da cidade, no topo do mundo. Tudo aos pés do Redentor.

A cidade acorda preguiçosa, vagarosamente, afinal os biguás deram, novamente, seu mais belo espetáculo harmônico. Sua mais linda revoada encimando, com muito açúcar e afeto, a esplendorosa Cidade Maravilhosa, um vai e vem diário entre a Lagoa, a Ilha do Governador, Paquetá e a Praça XV, no ar com muita graça. Altaneiros, bailaram sob o Sol.

Amanheceu Prometheus!

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca que iniciou carreira no “Jornal dos Sports”, “História e Glória do Rock” e “Revista O Cruzeiro”. Tem três livros publicados sobre o Rio. É flamenguista e portelense, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa. É autor das fotos e dos textos publicados nesta seção.

Amanhecer no Rio/Alvorada/Fotos: Carlos Monteiro

 

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