“BEIJOS NO CÉU PARA O AGNALDO TIMÓTEO”

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Por Yacy Nunes

Beijos no céu para o Agnaldo Timóteo.

Tive o privilégio de entrevistar várias vezes e de ficar amiga ( ele era uma excelente fonte, além de amigo ) do querido Agnaldo Timóteo.

Repórteres cariocas, que já cobriram  tudo na vida ( futebol, polícia, política, economia, cultura e colunismo social), também tiveram essa oportunidade.

Libriano típico, Agnaldo era doce e amoroso com quem o tratava bem e zangado com grosseiros, invejosos, egoístas e ignorantes avarentos.

Amante da perfeição, escolhia maravilhosamente seu repertório e aprimorava, cada vez,  mais a voz.

Para ele, houve falta de dinheiro, mas jamais aconteceu decadência ( com aquela voz, ele ganhou a vida, por ele mesmo,  até o final)

Generoso, quando lançou o super vendido LP Ângela e Timóteo juntos, em 1979, Agnaldo me recebeu, junto com o fotógrafo Mário Mizael, de O Dia, para uma entrevista exclusiva( regada a comes e bebes) que virou capa do Caderno D e do jornal de domingo ( O Dia batia recordes de vendas aos domingos).

Eu, que ainda estudava  ( me formei em jornalismo em dezembro de 1979) no último ano  da PUC-RJ, já tinha virado repórter especial ( estava em O Dia desde 1978). Trabalhava para a geral ( com o super chefe de reportagem, Gustavo Kaye ).

Mas, precisava ganhar um dinheirinho e consegui com a Beatriz Cruz ( editora do Caderno D ) horas extras em coberturas de especiais com artistas, etc ( O Dia pagava muito bem as horas extras , o dono do jornal era o governador Chagas Freitas).

A matéria tinha sido recomendada pelo querido Thassilo Mitke, que era o diretor de redação.  Um pisciano emotivo, poderoso e romântico.

Thassilo me chamou no aquário, antes de eu ir fazer a entrevista com Timóteo ( Também entrevistei Ângela Maria, fiz  entrevistas separadas). Disse que eu tinha que fazer uma matéria genial.  Recomendou, legal .  Obedeci, numa boa.

Eu não tinha medo do Thassilo Mitke.

E, confesso, amei pelo fato de a matéria ter sido recomendada.

Minha geração ( tenho 64) adorava Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Timóteo. Gardel. Cole Porter. Frank Sinatra, Erasmo, Roberto Carlos, Ronnie Van, Vanderley Cardoso, Jerry Adriani ( Também foi meu amigo querido), Cauby Peixoto ( outro amigo, com  quem tive a honra de conviver), etc..

Na época do vestibular, recorríamos aos românticos para driblar protestos da alma e do intelecto.

Nas pequenas reuniões que minha mãe, Yacy,  deixava eu fazer naquele apartamento onde moramos, no Leblon, havia violões e imitações das vozes de Agnaldo, Ângela, Dalva, Cauby, etc.

Quando Timóteo gravou Meu grito, de Erasmo e Roberto, eu punha a música na vitrola e ouvia direto. Para esquecer dos “grilos “( as angústias existenciais eram grilos, naquele tempo tínhamos muitos “grilos”).

Thassilo Mitke era alto, como meu pai argentino, e a revelação de que ele amava muito Ângela e Agnaldo me fez gostar dele  e não temer, nunca mais na vida,  as conversas sobre matérias recomendadas em aquários .

Eu tinha o estilo de perguntar e de escrever o texto final com as dicas  que havia aprendido na fase em que fui estagiária da Rádio Jornal do Brasil AM ( A editora era a Ana Maria Machado, o superintendente, o Carlos Lemos, o chefe de reportagem, Cezar Motta ).

Libriana igual a ele ( eu amo muito você, querido Timóteo, estou arrasada com a notícia de sua morte), quando cheguei ao apartamento do ídolo do Thassilo Mitke ( que acabou por ser meu ídolo também), em Copacabana, percebi que a amizade seria eterna.

Ganhei o disco autografado, ingressos para o show. E o ouvi cantarolar, durante o papo, algumas das músicas do vinil repleto de sucesso popular. 

Consegui arrancar de Timóteo, além de histórias fantásticas com Ângela Maria, opiniões sobre o Amor, a solidariedade, a  miséria brasileira, a cultura, a paz, o futuro, etc, afirmações contra a ditadura militar e desejos de que o Brasil voltasse a ser democrático.

Depois dessa primeira página, fiz muitas outras entrevistas com Agnaldo. Principalmente depois que ele foi para o PDT, de Leonel Brizola.

Mesmo quando Agnaldo namorou com a direita ( Deu apoio a Fernando Collor e ao Maluf, mas por pouco tempo), eu continuei amiga dele.  Nós nos encontramos muitas vezes nas festas do society paulista ( ele era muito amigo da Hebe Camargo e do Eron Alves de Oliveira) e, depois,  aqui no Rio.

Nas duas últimas décadas, Timóteo deu  apoio a Lula e à Dilma. E reaproximou -se dos antigos  amigos do PDT e de outros partidos progressistas.

Além da amiga e musa Ângela Maria, o botafoguense Agnaldo Timóteo idolatrava o mestre Cauby Peixoto.

Quando  adoeceu ( teve um AVC , em 2019), e ficou em coma,  e, depois de dois meses, teve alta  no Hospital das Clínicas, em São Paulo, cheguei a falar com ele ( eu tinha o celular dele, sempre nos falávamos pelo zap), algumas vezes, pelo telefone ( depois que acordou).

Ele tinha passado mal em Barreiras, no interior da Bahia, foi transferido para Salvador. E, em seguida, para São Paulo. Foi muito bem tratado pelos médicos, enfermeiros governadores e prefeitos da Bahia e de São Paulo. Fazia questão de agradecer.

Como todo libriano, Timóteo tinha que ganhar dinheiro pois ajudava muita gente. Dava gorjetas, esmolas.  Não guardava nada.   Nos últimos anos, passou por  dificuldades financeiras.  Mas, parecia um rei.

Vou sentir saudades de seus zaps e de suas notícias. De sua alegria e imensa generosidade.

Estou de Luto, amigo amado.

Vá em paz. Qualquer coisa, estarei por aqui.

Vou morrer de saudades.

Um brinde aos românticos e apaixonados.

O céu recebe agora um talento querido.

 

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