HOJE É O DIA DA MENTIRA

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Por Carlos Franco

O presidente de extrema direita Jair Messias Bolsonaro mente, mas mente tanto que deveras sente ser verdade o que mente. E, por vezes desmente o que mentiu, como dizer em cadeia nacional de rádio e televisão que a Covid-19, que já sepultou de março de 2020 a março deste ano de 2021, 321.886 brasileiros e brasileiras, era só “uma gripezinha” e, um ano depois, desafiar a todos afirmando que nunca disse o que disse. 

Ao contrário do famoso personagem Pinóquio, criado pelo jornalista e escritor italiano Carlo Collodi, pseudônimo de Carlo Lorenzini (1826-1890), que se humaniza ao longo da história infantil, Bolsonaro se desumaniza a cada vez que abre a boca e lança nova fake news (notícia falsa, mentira) buscando espaço na mídia. O jogo das fake news é, na realidade, uma estratégia bem pensada e articulada para reduzir, na própria mídia, o espaço que seria dado a fatos como a apuração do esquema de rachadinhas e a compra de uma mansão de R$ 6 milhões pelo filho 01, Flávio, pois, desumanizado, seus filhos não têm nomes, mas números.

A estratégia de fake news (notícias falsas), na realidade, tem sido usada ao longo do tempo por arquitetos da extrema direita como o nazista Joseph Goebbels, responsável pela comunicação de Adolf Hitler, e mais recentemente por Steve Bannon nas campanhas eleitorais de Donald Trump, nos Estados Unidos, e de Bolsonaro no Brasil, de quebra no “brexit” do Reino Unido da União Europeia, palavra que une “exit” (saída) com “british”, britânicos, britânicas, cidadãos que vivem na Grã-Bretanha, o Reino Unido da rainha Elizabeth II.

Esta estratégia de fake news, aparentemente bastante simples, envolve um sistema sofisticado de análise de  algoritmos, o primeiro deles criado por uma mulher, a britânica Ada Lovelace (1815-1852), filha de Lord Byron (1788-1824), o famoso autor de Don Juan. Busca se, sobretudo em redes sociais, o traço comum de uma pessoa e o seu vínculo com valores e ideias conservadoras, de preferência sua baixa escolaridade e, sobretudo, a dificuldade e capacidade para discernir o falso do verdadeiro e, assim, veicular mentiras como verdades nos seus grupos até que se tornem verdades e, portanto,fiquem reféns da mentira, defensores ardorosos das mesmas por não se sentirem sozinhas, têm coro.

A sistemática é exatamente a que pregava Gobbels ao dizer que uma mentira mil vezes dita acaba se transformando em verdade. E algumas de suas mentiras, de como todos judeus são ricos e agiotas  ainda encontram eco até hoje em mentes sem o discernimento para diferenciar uma mentira de uma verdade. Veem apenas banqueiros judeus e não agricultores, verdureiros, pastores de rebanhos de ovelha, pescadores e entregadores, o hoje popular delivery. Sim, existem agricultores, pescadores, costureiras, faxineiras entre os judeus. Não são todos banqueiros como querem fazer crer as fake news de que foram e ainda são vítimas.

Nesse jogo da extrema direita, vale usar até mesmo a Bíblia, pois sem o entendimento e discernimento dos objetivos daqueles textos, a maioria sem escolarização, compra uma mentira como verdade. No caso específico, estas são de interesse, inclusive, de pastores ávidos por manter seus rebanhos no cercadinho de seus templos, financiando suas obras individuais. Não importa, sequer, que isso implique distanciando abissal do Cristo do Novo Testamento, que dizem amar, mas que, na realidade, odeiam, pois traz a mulher e o amor como protagonistas em vez do machismo, da guerra, do confronto e do ódio que retroalimentam as fake news até mesmo em suas pregações.

Portanto, num tabuleiro em que as fake news movem as peças, não é de se estranhar que algumas instituições rasguem à luz do dia as páginas daquilo que é o seu alicerce. Foi o que fez, contrariando o alicerce na qual se assentou a maçonaria no mundo, a Associação Nacional Maçônica no Brasil (Anmb) ao divulgar nota saudando o golpe militar de 31 de março de 1964, que sepultou por 21 longos anos a democracia no Brasil, e externando “apoio incondicional” ao presidente de extrema direita.

Por sorte e, indiretamente redimindo a figura do maçom Carlo Collodi, o criador do Pinóquio que se humaniza, a  Associação Maçons Progressistas do Brasil divulgou rapidamente uma resposta, o  Manifesto sobre o uso indevido do nome da instituição maçônicarecolocando em pauta os valores dessa secular instituição, de defesa da liberdade e da democracia, remontado ao seu passado de quando surgiu da união de trabalhadores da construção civil, que usavam régua e compasso para a harmonia das construções.

Por fim e sobre a atualidade da charge de Aroeira, originalmente publicada pelo portal Brasil 247, está o fato de que a mentira mata. Foi por fake news, acusações falsas, que o templário francês Jacques de Molay (1244-1314), que empresta o nome a uma das ordens mais conhecidas da maçonaria, os DeMolay, foi parar na fogueira. E em nome de fake news e de um governo federal que vive delas que sepultamos muitos dos 321.886 brasileiros e brasileiras, de março de 2020 a março de 2021. Não são números, são pessoas, são 321.886 histórias de vida, pessoas que fizeram a diferença para familiares, amigos e conhecidos, hoje enlutados por essas perdas irreparáveis.

No país que acredita num Pinóquio às avessas, a única verdade é que a mentira, amplificada por cloroquinas, hidroxicloroquinas e outras falácias, mata. Mas talvez, e isso é verdade, proteja os atos e fatos vinculados aos números 01, 02, 03, 04 e 05 e aquele que prefere usar números em vez de nomes, continuar a ser o Pinóquio que não vai se humanizar nunca, será sempre um boneco com cara de pau.

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