PLAYLIST Djdu.K: TEATRO

0

Por Eduardo Silva Bernardt

Para o encenador José Celso Martinez Corrêa, a peça As Bacantes, escrita na Grécia pelo tragediógrafo Eurípedes, representa a mãe de todos os teatros. Eurípedes, que viveu no período clássico, no século V a.C., e foi adaptada pelo Oficina. O poeta grego teria escrito a tragédia utilizando cantos que ele próprio recolheu das últimas sacerdotisas do deus do êxtase sagrado, as mênades, que praticavam seus rituais num terreno próximo à sua moradia na Macedônia.

Bacantes (em grego antigo: Βάκχαι, transliteração: Bakchai) significa mulheres adoradoras do deus Baco (em grego: Βάκχος, transliteração: Bákchos; em latim: Bacchus), ainda, segundo Junito de Souza Brandão, são também chamadas de Mênades, e ambos os nomes tem o mesmo significando, as possuídas em êxtase e entusiasmo. Dioniso (em grego: Διόνυσος, transliteração: Dionysos), que também é chamado pelos gregos pelo nome de Baco, é, ele o próprio, o vinho, é o deus celeste da vegetação, da transformação, do êxtase, do entusiasmo, da orgia.

Na adaptação do Teatro Oficina, o prólogo nos conta vários outros eventos antecedentes às ações que veremos desenrolar durante a peça, diferentemente do texto original de Eurípedes. Eventos que são encenados e não apenas enunciados e estão no passado como, também, está a pulsão inicial do desejo em encenar As Bacantes muito antes de sua primeira apresentação em 1995.

Dentre estes ocorridos, assistimos aos dois nascimentos de Dioniso, o deus Staphylos, que é filho de Zeus, “o deus luminoso do céu” pai dos deuses e dos homens, com a amante, a princesa Sêmele. Mas, a esposa legítima de Zeus, Hera, aquela que não tolera infidelidades conjugais, mantendo-se sempre vigilante, descobre o envolvimento amoroso do marido e, sabendo da lascívia de Sêmele, a princesa que todo o prazer desejava conhecer, executa uma vingança funesta. Passando-se pela empregada de Sêmele, puxa conversa sobre o deus amante e, sem levantar suspeitas, provoca na patroa a curiosidade do desejo em conhecer o prazer que o amado poderia proporcionar em todo o esplendor da sua hierofania, ou seja, despido de sua forma humana, antropomórfica, apresentando-se na sua manifestação divina. Sêmele é advertida por Zeus do perigo de seu desejo, — É perigoso —. E a amante retruca. — Mas é gozoso. — A princesa, ainda, havia feito Zeus, apaixonado, jurar que não a contrariaria e, exigindo o cumprimento de seu desejo, o deus então se mostra como é, em raios e trovões, e a princesa amada acaba morrendo fulminada.

Zeus, num gesto desesperado, consegue salvar o feto que Sêmele trazia no ventre e o esconde na coxa para concluir a gestação. Ao nascer, Dioniso é levado a Ásia Menor para crescer numa gruta profunda sob os cuidados das Ninfas e dos Sátiros e a salvo do ciúme de Hera, enquanto em Tebas, propagam má fama a despeito de sua mãe e a origem divina. Diziam, inclusive as próprias tias, Agave, Ino e Autônoe, que Sêmele tinha se engravidado de qualquer mortal e, sem saber qual, imputou a Zeus a paternidade por invenção, mentira que a fez carbonizada como castigo do deus. Crescido, Dioniso chega a Tebas vindo da Ásia Menor, trazendo um cortejo de mulheres bárbaras, as Bacantes, às quais faz se juntarem todas as mulheres de Tebas. Esse mulherio aparece na peça como integrantes do coro. Com elas, Dioniso vem introduzir seu culto em terras helênicas para que todos conheçam sua divindade e, também, vem para resgatar a moral de sua mãe que ficou mal falada por inveja de suas irmãs. Mas, o primo, Penteu, filho de Agave, que estava rei de Tebas, por conta de sua razão louca, não o reconhece como filho de Sêmele e nem como deus, dando-lhe a perseguição e o combate no lugar do culto.

Como sabemos, Eurípides coloca o embate entre Dioniso e Penteu no centro da ação dramática de Bacantes, com a intenção de representar a luta do teatro, personificado em Dioniso, frente as forças a ele contrária, que já se levantavam em ameaça no século V a.C., personificadas em Penteu. Procedimento que, então, caracteriza meta-teatro, pois trata-se de um teatro que coloca em cena a si próprio, um teatro que fala sobre teatro, um teatro auto reflexivo. No caso, a metalinguagem é colocada em cena para abordar uma questão da condição histórica do teatro que é sua luta contra a perseguição, a imposição de controle e até a tentativa de aniquilação, haja visto que Dioniso, o teatro, é ameaça a qualquer ordem ou poder, político ou econômico, porque ele é a desmedida, ao mesmo tempo em que é o prazer da vida.

Ao longo da história, houveram várias investidas como as de Penteu, por exemplo, no Império Romano, que sob a política do panem et circenses, foi proibida a construção de estruturas teatrais permanentes e relegou-se o teatro à diversão sob a intenção alienadora de distrair o povo da política; depois, na idade média, a igreja católica proíbe a atividade teatral que passa a sobreviver clandestinamente, que só voltará a ser institucionalizada pela igreja católica no século XII enquanto celebração religiosa cristã; ainda, em 1574, em que os puritanos, considerando os artistas de teatro pertencentes a estirpe dos charlatões, vagabundos e prostitutas, é publicada a Carta dos Comediantes que proíbe o teatro em ruas e praças, restringindo as apresentações à apenas espaços fechados e em determinados horários e dias do calendário, desde que ocorra sob a tutela de um nobre.

No Brasil, o período em que o teatro sofreu a maior repressão foi durante a ditadura civil-militar, do golpe de 1964 até 1985, e, certamente, um dos momentos mais marcantes foram os dois espancamentos dos atores de Roda Viva planejados pelo CCC – Comando de Caça aos Comunistas em 1968.

Porém, mesmo que as perseguições sejam vitoriosas, em algum momento o teatro renasce, tal como Dioniso que perseguido, caçado, trancafiado, esquartejado ou fulminado, se mantém em potencial subterrâneo como uma semente, domemos modo como esteve no ventre de Sêmele, ou na coxa de Zeus, ou protegido na gruta profunda na Ásia Menor, aguardando o momento propício para retornar e se reinventar.

Share.

About Author

publicitta

Leave A Reply