MULHERES CRIATIVAS, UNI-VOS. UM CONVITE DE ADRIANA CURY

0

Por Adriana Cury

VOCÊ NÃO ME CONHECE.

Ou talvez não me veja há muito tempo por aqui.

Sou redatora.

Fui Presidente e Chairwoman da McCann Erickson Brasil, uma das poucas criativas que chegou a um cargo máximo de gestão nesse mercado.

Também fui VP Nacional de Criação na Ogilvy & Mather, VP e diretora de criação em várias outras agências.

Construí uma carreira sólida, fui jurada 2 vezes em Cannes (na minha época também fui a única mulher jurada do então famoso Titanium), ganhei leões, prêmios internacionais, prêmio Caboré, Melhor Criativa pelo Prop&Mark, fui indicada 2 vezes pela Revista Forbes como uma das “Mulheres mais Influentes na Área de Marketing e Publicidade” no Brasil.

Um dia eu parei.

Precisava respirar, descomprimir, me olhar.

Minha missão tinha sido cumprida: fazer uma revolução estrutural e criativa na McCann.

Eu saia de lá com clientes satisfeitos, a McCann entre as 4 mais premiadas do mercado e entre as 25 melhores da América Latina.

Além de um ano pra pensar, também ganhei um câncer de intestino que tomou mais da metade do meu sabático, um divórcio e uma mudança radical de vida e maneira de pensar.

Decidi que o modelito workaholic já não me servia mais.

E o que fazer com aquela paixão pela profissão, criar, escrever?

Abri meu próprio negócio. Fechei. Fiz cursos, bati cabeça, fui estudar, conversei aqui e ali, inventei coisas que não deram certo, conheci o melhor e o pior de um monte de gente que me sorria.

Ao mesmo tempo em que colecionava descobertas, não queria voltar pro mercado, não pro grande mercado e suas estruturas mais engessadas.

No fundo, minha alma pedia silêncio. Espaço e tempo pra olhar pra fora da bolha. Sem contaminações externas.

Entreguei tudo isso a Deus e, no melhor estilo Zeca Pagodinho, deixei a vida me levar.

Fui ajudar a Luiza Trajano no Grupo Mulheres do Brasil, conheci gente incrível, olhei as mulheres e toda a luta que estava se organizando pra nos tirar da condição injusta em que ainda estamos (mas já melhorando).

Vai daí que, pelas mãos do Walter Longo, fui parar numa agência digital.

A ideia era torná-la uma empresa 360ª (o termo já venceu o prazo de validade, mas dá pra entender), capaz de produzir conteúdo on e off para os clientes. Ou seja, tudo o que uma marca precisa hoje. 

Sou da geração off, aprendi a pensar com profundidade, a produzir campanhas inteligentes e pertinentes, capazes de surpreender o consumidor e os clientes. Mas, confesso, o universo digital não era o meu forte.

Minha equipe era “xovem”. Acho que o mais velho teria o quê? 24 anos? Mais ou menos por aí.

Eles me olhavam como um Tutankamon recém saído da tumba e eu a eles, como um bando de crianças no recreio da escolinha, loucas pra roubar a maçã da lancheira da amiguinha.

Foi um choque de geração, de mindset, de preconceito e, principalmente, de paciência. De ambos os lados.

Eu sabia coisas que eles não sabiam, e eles sabiam coisas que eu não sabia.

Mas teríamos que nos aturar e eu conduzi-los ao pensamento estratégico híbrido, capaz de olhar o todo, não importa a plataforma.

Hoje eu olho pra trás e dou risada. Acho que eles também. Porque a revolução foi feita. E, confesso, foi genial!!!

Em horas de dificuldade, aprenda uma coisa. Guarde seu ego na gaveta, você nunca vai saber tudo. Ensine o que acha que sabe, mas ouça, observe, entenda, mesmo que tenha vontade de bufar e ir gritar no banheiro.

Foi mais ou menos o que eu fiz.  Acho que eles também. E fomos nos conhecendo, nos entendendo, aprendendo uns com os outros.

Mais do que tudo, fomos nos respeitando. E construindo juntos um trabalho que a cada dia ficava mais incrível, mais legal, mais interessante. Os clientes foram gostando e aumentando em número.

Isso provou uma coisa: juntar “xovens” com profissionais mais seniors dá certo sim!!! Dá muito certo!!!

Basta criar as condições necessárias para que cada um possa expressar seu melhor e estrategicamente reunir e transformar isso em criatividade a serviço da marca.

Aprendi muito. E hoje me considero híbrida. Olho pros dois lados do balcão, entendo o on e o off, e se ainda tenho dúvida sobre algo, pergunto sem medo.

Me sinto muito mais forte do que jamais me senti. Porque venci. Muita coisa.

Pratiquei a humildade e a utilizei como força pra ir adiante.

Hoje sou VP de Criação da NOVA SB e fazemos exatamente este trabalho híbrido no meu núcleo. Minha equipe tem gente de 20 e de 50 anos. Mulheres e homens. Equiparados em número.

E vai daí que recebi um convite inesperado. Aliás, este seria o tema principal desse textão. Mas tudo chega na hora que tem que chegar, essa lição eu já aprendi.

Bem, eu recebi um convite de conhecidas do mercado no Chile para abrir o Círculo de Criativas Brasil, compondo, com a entrada do Brasil, o Círculo de Criativas Latam, atualmente com 16 países.  O convite me chegou pelas mãos da Calu Sarroca, tremenda criativa.

O objetivo?

Fortalecer o papel das criativas mulheres no mercado, lutando pra mudar o preconceito, e fazendo com que salários, oportunidades de contratação e cargos, e presença em juris nacionais e internacionais possam ser mais igualitários e justos.

Incluo aqui igualdade de gênero, opção sexual, etnia. Mais uma coisa importante: ageísmo.

Ô termo ruim, mas vamos trabalhar  também pelas profissionais seniors, as famosas vítimas do RG (isso acontece com os homens, também, infelizmente).

Ao observar  dados de mercado, fica claro  que a data de aniversário, depois de um certo tempo, passa  a ser quase uma punição, algo como um termômetro que acusa  a possível incapacidade da  pessoa de expressar seu talento e o seu valor.

Conheço jovens extremamente ”velhos”  e “velhos” extremamente jovens. 

O que determina o seu valor não é o tempo de vida, mas o de experiência.

É a capacidade de se reciclar, de ter humildade pra aprender e virar o jogo que agrega valor no currículo da vida.

Arrogância e preconceito não levam a lugar nenhum. Seja você homem, mulher, CIS, trans, negro, índio, velho, moço ou bebê.

Por isso estamos lançando o Círculo de Criativas Brasil.

Junto com Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, Porto Rico e Uruguai.

Se você gosta da proposta, quer colaborar e ajudar a gente a melhorar as coisas pro nosso lado e o lado de toda a sociedade, se inscreva.

Vamos trabalhar com mentoring, educação das novas gerações e inserção no mercado de trabalho, troca de experiências e muita informação pra capacitar cada vez mais mulheres criativas. Sejam on e/ou off, fotógrafas ou diretoras de cinema, ilustradoras ou assistentes de arte e produção.

Vai lá na nossa bio e preenche o formulário aqui.

Só mais um detalhe: organizações que aumentaram a presença de mulheres em até 30% nos cargos de alta liderança cresceram 15% .

Não sou eu quem está falando, é a MC Kinsey, através da pesquisa do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Vamos juntas? Te espero!!

Share.

About Author

publicitta

Leave A Reply