CARLOS MONTEIRO: PELAS ESTRADAS DA VIDA

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Por Carlos Monteiro*

Mais perto do destino, atravessei rios, pontes, overdrives e andanças. Caminhei pelo mundo, pelas cidades de Atlântida, Shangri-lá dos poetas inebriados. Aventureiros malabares, magos incomuns, Merlins da existência plena, divina e sorrateira. Filósofos perdidos nesse mundo de meu Deus. Passa rodovias e viadutos e tu nem te lembras de voltar. As estradas da vida são longas, muitas vezes sinuosas e esburacadas, noutras com vastas e intermináveis soníferas retas, em outras mais, pavimentadas, bem-sinalizadas, arborizadas e floridas. Antagônicas por vezes, protagonistas em personagens divinos.

Noite alta, céu tristonho. Chovia e fazia frio naquela noite invernal de julho. Me deslocava entre Piraí e Volta Redonda. Na manhã seguinte teria uma reunião com os proprietários de uma grande distribuidora mineira. Marcaram um café da manhã às 6h30, pois viajariam imediatamente para o Rio e da Cidade Maravilhosa para Londres. Tudo absolutamente cronometrado. Não costumava viajar em noite chuvosas, mas, aquela situação não me dava escolha. Acordar, ainda na madrugada e viajar sonado, muito provavelmente na salseirada não era boa ideia. A estrada que liga as duas cidades, era perigosa em todos os sentidos. Havia muitos assaltos, estava bastante malconservada – você fazia a Escolha de Sofia em que buraco cairia -, o matagal escondia a sinalização praticamente inexistente, o breu tomava conta de tudo. Mesmo os faróis altos, de milha e neblina em conjunto, não davam conta de iluminar aquele caminho para o Apocalipse Now. Além de tudo, era pouquíssimo povoada no entorno.

No meio do caminho tinha alguém. Já afastado alguns quilômetros de Piraí, meio que num Deserto de Atacama, avistei um vulto sentado à beira do caminho, enrolado no que parecia ser uma, lona tentando se proteger do temporal com um guarda-chuva que estava mais para Mary Pops do que para abrigar alguém. Ato contínuo ao ver minha aproximação, levantou-se e com o dedo polegar em riste e fez o sinal internacional de carona. Não ia parar, tudo era contrário, passei direto, mas, poucos metros depois resolvi parar. Meu sétimo sentido me ‘dizia’ que eu devia, apesar dos outros seis serem absolutamente contrários. Nessas situações, a regra de ouro que aprendi com os caminhoneiros, era parar à frente, deixar o carro engrenado e, ao menor sinal de qualquer movimento suspeito, sair cantando pneu. Estava muito escuro, só percebi se tratar de um casal quando já estavam à porta. Não havia o que fazer. Minha surpresa foi maior ainda, em saber que com eles estava um bebê de meses. Encharcados até a alma, ofereci uns moletons do mostruário – peças que seriam utilizadas na reunião, umas toalhas que sempre carregava comigo e um edredom que havia comprado na noite anterior, de um viajante no restaurante ‘Cêqsabe’, a fim de agasalhar o rebento.

Eram novos, muito jovens. Tinham conseguido uma carona até a estrada, para dali embarcarem em um ônibus que os levaria até a rodoviária de Barra Mansa e de lá ao seu destino. Erraram o horário e foram surpreendidos pelo temporal. Ficaram ao Deus dará. Eram simples, não conversaram muito. Limitaram-se a responder, monossilabicamente, minhas perguntas que mais pareciam uma entrevista para o caderno B do Jotabê.

Apesar de não ser meu destino, levei-os até a rodoviária das terras de Celinas, a aprazível Barra Mansa. Queriam devolver as roupas e o agasalho, que àquela altura se tornara um moisés. Declinei, desejei boa sorte, perguntei se precisavam de algo. O rapaz me olhou n’alma e, em tom profético disse-me: “—Moço, a gente colhe o que a gente planta”. Agradeceram e sumiram na poeira das ruas. Me pus a pensar sobre aquelas palavras e cheguei à conclusão que nada entendi.                     

Passados quatro ou cinco anos, fiz aquela aventura que nos dá duas alegrias na vida: a da compra e da venda. Adquiri um Passat GTS Pointer. Um verdadeiro maestro, em cada esquina um belo concerto com ‘S’. Uma dor de cabeça infinda. No mesmo dia em que o retirei da concessionária, em meio a avenida Brasil, soltou um parafuso de uma das rodas. Numa das viagens à Paraty, descendo por Lídice, o bendito começou a engasgar até que parou no meio do nada. O marcador de temperatura acusava que ele teria fervido, no entanto estava normal. Havia um dispositivo que desligava o carro para que não fundisse o motor.

 Já entardecia, não havia orelhão por perto, o rádio PY do carro não alcançava ninguém… estava sozinho na América. Por ser uma estrada secundária, o trânsito é bastante tímido. Minha saída era andar, ver se encontrava alguém que se dispusesse a me ajudar. Avistei uma casinha em meio a folhagem. Era pau a pique e sapê. Uma senhorinha respondeu ao meu ‘ó de casa’ com ‘o Senhor Jesus Cristo seja louvado’! Ato contínuo respondi: ‘para sempre seja louvado’, lembrando de um cliente muito católico, que dessa forma recebia as visitas. Contei-lhe o meu dilema e fui orientado a procurar o Zé que ‘mexia com essas coisas’ e morava logo ali na frente. Foi um ali mineiro. Andei como um beduíno, sem o camelo, pelo Saara. Cheguei à oficina do Zé. O chão, mais parecia ter sido forrado, tal era a limpeza e o capricho. Ferramental impecável.

Primeiro chegou uma moça, perguntou o que era e imediatamente gritando, como Tarzan, o chamado retumbante. —Ô Zéeeeee, tem um moço querendo prosa contigo! Expliquei o problema diante de um Zé apático, cara e bocas com a minha explanação e um sonoro ‘vixi’ na conclusão do relato. Pediu-me um minuto, catou umas ferramentas e partimos na direção do veículo. Obviamente, ao chegarmos, o bendito ligou como se nada tivesse acontecido. Eu ali com cara de Pateta, o Zé com um sorriso irônico de canto de boca e o possante rodando macio em 1200 RPMs. Só me restava perguntar quanto era, dar uma carona ao rapaz e seguir viagem.

Mas bendito que é bendito não dá trégua. Bem próximo a oficina, novamente o cof-cof-cof. Desta feita foi próclise e mesóclise ao mesmo tempo. Não ligava nem com reza brava. Completamos o circuito empurrando o dito cujo até ao pátio do singelo ateliê. Desmonta daqui, olha dali, liga de lá e nada. Um Zé suando em bicas, um bendito que não queria papo, a noite caindo bêbada e eu ali no alpendre apreciando a natureza se recolhendo. Bailavam corujas e pirilampos, quem sabe, Sacis e fadas.

Peças entornadas pelo chão, parafusos namorando porcas, carburador enrabichado com as velas, sai o diagnóstico fatídico. Era um diodo, que ficava por trás do velocímetro e estava queimado, provocando o defeito intermitente. Sem sua troca nada seria resolvido. — Muito bem, disse eu. Você o tem aí? Nem completei a frase. Não tinha, como julgou ser uma peça só encontrada em Resende ou Angra dos Reis. Naquela altura não haveria tempo de chegar a essas cidades com o comércio funcionando. Também disse que eu ficasse tranquilo, que ele ia dar um jeito. Que tomasse um café enquanto ele saía. Não demoraria.

Concluí que o Zé era mineiro também, pois demorou e muito. Retornou com a tal peça; instalou-a, me ofereceu jantar e remontou o carro. Naquela altura do campeonato havia um taxímetro pairando em minha cabeça. Quanto iria custar a odisseia? Serviço concluído, carro testado e retestado, outro café coado e a pergunta que não queria calar em minha existência: — Então Zé, quanto te devo? Fui surpreendido por um sonoro —Nada! Como assim? Nada? O rapaz passou horas empenhado no conserto, parou o que estava fazendo para me atender, se deslocou em busca da peça, ofereceu um jantar, que, aliás, estava uma delícia… e nada custaria, nem o valor daquele fragmento mínimo que havia me deixado na mão? Indaguei novamente, relevando o trabalho que fora auferido. Outra vez um sonoro ‘nada’!.

Não conseguia entender por mais que me esforçasse. Tanto trabalho, tanta atenção, tanta dedicação, para, simplesmente, aceitar como paga, um ‘muito obrigado’? Quis entender melhor, questionei. Obtive como resposta: ‘Carlos, a gente colhe o que a gente planta’! Eu jamais lembraria do casal.

A vida tem dessas coisas.

 

*Carlos Monteiro, 62, é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca que iniciou a carreira no “Jornal dos Sports”, “História e Glória do Rock” e “Revista O Cruzeiro”.  Tem três livros publicados sobre o Rio. É flamenguista e portelense, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa.

Rio de Janeiro (RJ) – Amanhecer/ Alvorada/   Fotos: Carlos Monteiro

 

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