MEMÓRIA MUSICAL. NA ABI, O SAMBA NÃO MORRE.

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O carioca de Inhaúma, José Flores de Jesus, o Zé Kéti, não viu a chegada do século XXI; morreu um ano antes, aos 78 anos, mas fará sucesso por muitos anos ainda porque não há carnaval sem que sua Máscara Negra anime os foliões com o pula-pula do “vou beijar-te agora”… Sua música Opinião foi também um canto de protesto durante a ditadura militar no show que o levou ao estrelato no Rio junto com Nara Leão. Ele cantou o samba, as favelas, a malandragem e seus amores.

Por isso, hoje, o produtor cultural Paulo Figueiredo homenageia o compositor, além de Wilson Moreira e Candeia, conversando com as filhas dos três ícones do samba carioca. A partir das 19h30, no MEMÓRIA MUSICAL, no canal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no YouTube, , estarão contando histórias de seus pais Geisa Kéti, Andreia Moreira, e Selma Canseira, herdeira de Candeia. O objetivo do programa é reverenciar os mestres de nossa música e compositores de grande sucesso, atualizando as gerações e ressaltando o importante legado do samba para a cultura popular. Assista pelo canal da Associação Brasileira de Imprensa no YouTube onde ficará gravado.

ZÉ KÉTI

Em 1924, ainda garoto, Zé Kéti, o Zé quieto pelo seu temperamento tímido, participava das reuniões musicais na casa do avô, flautista e pianista, que recebia Pixinguinha e Cândido das Neves, entre outros. Ele começou a atuar na ala dos compositores da Portela e, em 1946, Tio Sam no Samba foi o primeiro de sua autoria, mas sua carreira só deslanchou nove anos depois com o samba A voz do morro, sucesso no filme Rio 40 graus (1955)e, em 1950, foi a vez de  Leviana, incluída no filme. Em 1962, idealiza o conjunto A Voz do Morro, com Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, José da Cruz, Oscar Bigode e Nelson Sargento e lançam três discos.

Em 1964, Zé Kéti participa do espetáculo Opinião, ao lado de João do Vale e Nara Leão, tornando conhecidas algumas de suas composições, como Opinião e Diz que Fui por Aí, esta em parceria com Hortêncio Rocha. No ano seguinte, lançou Acender as velas, considerada uma de suas melhores composições, incluída entre as músicas de protesto da fase posterior a 1964; a letra desse samba possui um impacto forte, criando pelo relato dramático do dia-a-dia da favela. Nara Leão e Elis Regina fizeram um enorme sucesso com essa gravação.

Também em 1964, ele recebeu o troféu Euterpe como o melhor compositor carioca e, juntamente com Nelson Cavaquinho, o troféu O Guarany, como melhor compositor brasileiro. Em 1967, compõe outro grande sucesso nacional, a marcha-rancho Máscara Negra, gravada por ele mesmo e por Dalva de Oliveira, vencedora no 1º Concurso de Músicas para o Carnaval. Nos anos seguintes, viveu um período de esquecimento e, em 1988,teve o primeiro derrame cerebral.

Em 1996, lança o CD 75 Anos de Samba, com participação de Zeca Pagodinho, Monarco, Wilson Moreira e Cristina Buarque. Nesse mesmo ano, sobe ao palco com Marisa Monte e a Velha Guarda da Portela, interpretando clássicos como A voz do morro e O mundo é um moinho, de Cartola, entre outros. Em 1997, recebeu da Portela um troféu em reconhecimento pelo seu trabalho e, em 1998, ganhou o Prêmio Shell pelo conjunto de sua obra: mais de 200 músicas. Nesta noite foi homenageado por Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Monarco e a Velha Guarda da Portela, no Canecão.Sua última apresentação foi janeiro de 1999, ao lado da Velha Guarda da Portela. Morreu nesse mesmo ano.

WILSON MOREIRA

Judia de Mim, composta ao lado de Zeca Pagodinho é, até hoje, um dos maiores sucessos de Wilson Moreira que foi guia de deficientes visuais, guarda penitenciário e engraxate, mas desde criança, se interessou pelo samba, tendo na família avós e tios jongueiros e tocadores de caxambu. Em 1955, participou da fundação da ala dos compositores da Mocidade Independente de Padre Miguel, tocando também da bateria da escola. Seu primeiro samba-enredo, Bahia, foi um sucesso e, As Minas Gerais, elogiado por Ary Barroso. Em 1968, o carioca de Realengo, passa colaborar em outra escola de samba, a Portela, onde faria história na ala dos compositores. Ali, encontraria parceiros e amigos como Paulinho da Viola, Candeia, Natal da Portela e outros.

O sambista teve as suas composições cantadas por grandes nomes da música brasileira. Leny Andrade, em 1956, gravou pela primeira vez sua música. Compôs temas gravados por artistas como Beth Carvalho em Te Segura, Goiabada Cascão, Morrendo de Saudade e Peso na Balança, Alcione (Gostoso Veneno), Clara Nunes (Mulata do Balaio e Deixa Clarear) e Elizeth Cardoso (Cidade Assassina). Jorge Aragão, Martinho da Vila também gravaram algumas de suas obras.

Quintal do Céu, é outra de suas composições mais recentes de sucesso. Mas, o companheiro musical costumeiro era o compositor Nei Lopes, parceria considerada uma das mais bem sucedidas da história do samba, rendendo dois discos antológicos; o primeiro A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes, de 1980, contendo clássicos como Goiabada Cascão e Gostoso Veneno; já o segundo, O Partido (Muito) Alto de Wilson Moreira e Nei Lopes, de 1985, traz Fidelidade Partidária e Eu Já Pedi. Ele faleceu vítima de câncer no rim em 7 de setembro de 2018.

CANDEIA

Ninguém ligaria o nome do investigador Antonio Candeia Filho ao compositor e cantor carioca Candeia que morreu precocemente, aos 43 anos, em 1978, por problemas decorrentes de tiros que levou na profissão de policial e que o deixou paralítico. Sambista e boêmio, conviveu com Paulo da Portela, João da Gente, Claudionor Cruz e Luperce Miranda, frequentadores das rodas de choro em sua casa, em Oswaldo Cruz. Surge daí o bloco Vai como pode, o embrião da Portela, escola que ele rejeitou por divergências, fundando a escola de samba Quilombo.

Em 1953, Candeia compôs seu primeiro samba para a Portela, Seis datas magnas, em parceria com Altair Marinho, recebendo a nota máxima do júri. Com seu violão e cavaquinho, venceu outras quatro seletivas: Festas juninas em fevereiro (1955) e Legados de Dom João VI (1957), ambos em parceria com Waldir 59, Rio, capital eterna do samba e Histórias e tradições do Rio quatrocentão. No conjunto Mensageiros do Samba, ao lado de Picolino e Casquinha, apresentou-se no bar Zicartola e, em 1964, lança um LP. No total, foram cinco álbuns. Em 1970, surge seu primeiro disco com um dos seus grandes sambas, em homenagem à Portela e, entre 1973 a 1976, Candeia foi um dos personagens do documentário  de Leon Hirszman com seu nome. Em 1977, participa do álbum Quatro grandes do samba, com Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Elton Medeiros e assina com a gravadora estrangeira WEA. Em 1978, lança o livro Escola de samba: a árvore que esqueceu a raiz e finaliza a gravação de Axé – Gente amiga do samba, seu quinto e último álbum.

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