UMA CANÇÃO PARA CORA PAVAN CAPPARELLI

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Na próxima  quinta-feira, 18 de março de 2021, os sinos dobrarão nas igrejas de Uberlândia, segunda maior de Minas Gerais, depois de Belo Horizonte, anunciando que é hora de rezar. Momento de elevar ao firmamento canções e orações pela alma de Cora Pavan  Capparelli, a mulher que ousou fazer música e formar músicos nesta cidade do Triângulo Mineiro, sendo a missa principal de sétimo dia convocada para às 18 horas pelo YouTube da Catedral de Santa Teresinha do Menino Jesus. Atenderão, assim, com missas on-line, à súplica do compositor Ernesto De Curtis (1875-’1937) na canção napolitana Canta pe’mme, composta em 1909 e que foi sucesso na voz do magistral Enrico Caruso (1873-1921). A mesma canção que Cora Pavan Capparelli acompanhou ao piano o cantor José Spini no palco, hoje silencioso, do Teatro Rondon Pacheco no, agora distante, ano de 2016.

Canta pe’ mme, pe’ mme ca’ mme ne moro,/moro sentenno na canzone bella.
(Cante em mim, enquanto eu morro,/Eu ouço uma linda música.)

Só que Cora Pavan Capparelli não morre, fica encantada, depois de muito encantar, como o texto de uma de suas antigas alunas, hoje professora no Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Capparelli, Beatriz de Macedo Oliveira.

CORA PAVAN CAPPARELLI: PROTAGONISMO, LEGADO E SAUDADES

Por Beatriz de Macedo Oliveira*

Na manhã da sexta-feira 12 de março os uberlandenses acordaram sem a presença física de D. Cora, como era comumente conhecida, vítima da COVID-19. Cora Pavan Capparelli foi uma mulher empreendedora que teve como projeto pessoal a criação de uma escola de música para formação artística e profissional e perpetuação da cultura na cidade de Uberlândia. Cora foi uma das primeiras mulheres a sair da cidade com 17 anos para estudar em um grande centro, morar em um pensionato para estudar piano, fazer vestibular na PUC em São Paulo onde graduou-se em Geografia e História e formou-se em 1946 no Conservatório Dramático Musical de S. Paulo. De volta a Uberlândia, Cora lecionou por 10 anos em seu domicílio, até que percebeu a necessidade de profissionalização de alguns alunos em estágios de estudos avançados. Não havia ensino Superior em Uberlândia e nem básico, apenas professores que lecionavam em domicílio.

A iniciativa da criação de um Conservatório em Uberlândia estava em consonância com os projetos educacionais, sociais, políticos e econômicos de uma cidade em crescimento, e buscando orientação com o ministro da educação da época Cora fundou Conservatório Musical de Uberlândia em 13 de julho de 1957 que desde o início já funcionava como centro de cultura e formação profissional especializada e ampla de professores e músicos habilitados ao exercício da profissão. O Conservatório foi a primeira escola da cidade de Uberlândia a oferecer um curso a nível superior reconhecido pelo MEC.

Como o curso tinha um alto custo para os alunos Cora procurou transformar a escola em estabelecimento de ensino público e em 1965 o Conservatório foi encampado pelo Estado de Minas Gerais, mas somente em 1967 passou a ser mantido pelo Estado e começou a funcionar com o nome Conservatório Estadual de Música de Uberlândia. Desta maneira, com um ensino autorizado, essa escola de música iria empreender uma formação musical na cidade para certificação profissional do músico e do professor de música.

O curso superior de música foi integrado à Universidade Federal de Uberlândia e o Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Capparelli atende a uma clientela com realidades diversificadas cronológicas, sócioculturais e economicamente, bem como a inclusão de indivíduos em situação de deficiência.

Cora Pavan Capparelli nos deixou como legado uma instituição cujo objetivo é promover a formação musical e artística de crianças, adolescentes e jovens por meio de atividades de iniciação musical, enriquecendo o currículo em artes visuais, dramáticas, danças e canto e que favorecem o desenvolvimento de habilidades fundamentais para a execução de instrumentos musicais e profissionalização de músicos em nível técnico.

Para todos que tiveram a oportunidade de conhecer D. Cora ficou a saudade de ouvir sua voz suave nas suas ponderações, conselhos, discursos e na maneira humilde e amorosa de falar do Conservatório e dos alunos que se destacam mundo afora e da necessidade de sermos persistentes em nossas metas e humildes em reconhecer nossa pequenez para encontrarmos sempre portas abertas e amigas para somar conosco.

*Beatriz de Macedo Oliveira (professora de Flauta Doce no Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Capparelli de Uberlândia de 1990 à 2017, habilitada em História e Música pela UFU, em Orientação Educacional pela UNIFRAN, Inspeção Escolar pela Clarentiano e Mestre em Artes pela UFU)

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