“QUEM PARTE LEVA A SAUDADE DE ALGUÉM QUE FICA….”

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“Quem parte leva a saudade de alguém que fica chorando de dor”

Por Bruno Pereira*

Você com certeza já ouviu a letra a seguir: “Está chegando a hora/ O dia já vem raiando, meu bem/ Eu tenho que ir embora”. Não?! Talvez você até saiba cantarolar… E a continuação no título deste artigo, “Quem parte leva saudades de alguém que fica chorando de dor”? E a seguinte: “Eu tenho uma casinha lá na Marambaia/ Fica na beira da praia, só vendo que beleza”?

As canções cujas letras e melodias você certamente já ouviu são: Tá chegando a hora e Só vendo que beleza. Lançadas no carnaval de 1942, foram ao longo dos anos interpretadas por grandes nomes da música popular brasileira, além de trechos delas terem sido incorporados por práticas populares como canções de torcida de futebol e como refrãos em manifestações políticas. Elas foram compostas pelo sambista paulista Henrique Felipe da Costa, mais conhecido como Henricão, que no último dia 11 de janeiro teria comemorado 113 anos.

Henricão possui uma vasta produção artística, ainda em grande medida desconhecida. Tal vida passou pela atuação variada no meio artístico em modernização ao longo do século XX – o rádio, o teatro, o cinema e o carnaval – entre o Rio e São Paulo, entre as décadas de 1930 e 1950. Sendo as ideias de raça, nacionalidade e modernidade essenciais para a formação dos cenários culturais carioca e paulista do início do século XX, voltar-se para uma abordagem biográfica e etnográfica que borre as fronteiras entre sujeito e sociedade permite vislumbrar aspectos interessantes dessas cidades e período. Também parto da ideia de que se as diferentes modernidades têm relação com a agitação da vida urbana, da reorientação das relações entre os indivíduos, do consumo de novas formas de entretenimento, da emergência de novas identidades, podemos indagar esse processo com ênfase na agência de sujeitos que vivenciaram esses processos. Convido o leitor a uma breve viagem pela formação de um desses sujeitos.

Henricão como rei momo no carnaval de 1984 em Itapira – Foto: Acervo do Museu Histórico de Itapira

Henrique Felipe da Costa nasceu 1908 em Itapira, a cerca de 150 quilômetros da capital do estado de São Paulo, na fronteira com Minas Gerais. Entre as memórias de personagens e eventos nos canais oficiais e paisagem desse município, se destacam as seguintes: ter sido palco de um caso notório de assassinato de um abolicionista às vésperas da assinatura da Lei Áurea, ser também a terra natal do escritor modernista Menotti del Picchia (1892-1988), ter sido palco de ferrenhas batalhas durante a Revolução Constitucionalista de 1932, e por ter uma festa de 13 de maio em homenagem a São Benedito e à abolição da escravatura, organizada por uma irmandade que se dedica à devoção do santo e que até hoje reúne várias manifestações afro-brasileiras.

Henricão esteve ligado durante toda a vida à festa de 13 de maio. O artista era filho de um líder de congadas locais que se apresentava na celebração, se tornou membro da irmandade de São Benedito e durante toda a vida retornava à cidade para as comemorações de maio. Tal forma de organização congregava a população negra e italiana da cidade, criando laços de colaboração entre diferentes setores da sociedade itapirense que se espraiavam para além da cidade e que seriam muito importantes para o jovem interiorano conseguir se estabelecer em outras cidades.

Ao chegar a São Paulo na década de 1920, Henricão encontra nos jovens cordões carnavalescos, como o Cordão Carnavalesco da Barra Funda ou Camisa Verde, na Barra Funda, fundado em 1914 por outro importante sambista paulistano que passou parte de sua vida no Rio de Janeiro, Dionísio Barbosa (1891-1977), outras formas de associativismo popular e negro. Tais associações então passavam a se espalhar por bairros que circundavam o centro antigo da cidade e foram chamados por Raquel Rolnik de territórios negros de São Paulo, como os Campos Elíseos, a Liberdade, o Bixiga. Neste último, Henricão e outros participantes de um time de futebol de várzea do bairro fundariam a escola de samba Vai-Vai. Tais associações organizavam o lazer e formas de auxílio mútuo entre a população negra no período, além de serem espaços importantes para a formação de músicos populares como ele. Também por lá circulava uma candente vida negra paulistana, hoje em dia cada vez mais pesquisada por historiadores como Petrônio Domingues.

A vida modernista de São Paulo da década de 1920 também foi visitada por Henricão, que frequentou o Clube dos Artistas Modernos e lá conheceu o diretor teatral Flávio de Carvalho (1899-1973), com seu projeto de teatro moderno. Henricão atuou na então polêmica peça Bailado do Deus Morto, de 1933, mas já conhecia os palcos desde Itapira e pela influência de um irmão mais velho que atuava como diretor em uma companhia própria, formada por atores negros, da qual a escola de samba Vai-Vai herdou o figurino para o primeiro desfile carnavalesco.

Além de uma vida artística nos palcos e do associativismo carnavalesco, Henricão encontrou em São Paulo algo que não poderia ter encontrado na pequena Itapira: a inserção no mercado radiofônico através da participação em programas de calouros. Esse meio que ele acessou no final dos anos 1920, um momento em que as primeiras emissoras de rádio paulistanas como a Record, Cruzeiro do Sul e Kosmos ainda estavam alterando sua programação para receber músicos populares, o diferencia de muitos de seus pares paulistanos brancos e negros: ele teve uma ascensão rápida no meio musical que seria confirmada com a inserção em emissoras cariocas, por meio das quais também se estabeleceria no mercado fonográfico.

As décadas de 1930 e 1940 são os períodos de passagem de um jovem itapirense em busca de inserção em um mundo musical ainda em formação para um sambista reconhecido por seus pares. A parceria com Carmem Costa (1920-2007), que conheceria durante a participação em grupo de Francisco Alves (1898-1952), foi desse período. Como membro dessa dupla é que Henricão grava seus principais sucessos, entre eles os já referidos no início deste artigo: Tá chegando a hora e Só vendo que beleza. Nesse período, grava cerca de quarenta canções. Também é dessa época o período de circulação mais intensa do artista no Brasil, que vivia principalmente entre São Paulo e Rio Janeiro, mas que fez apresentações no Nordeste e Minas Gerais, sempre em contextos urbanos e associadas a emissoras de rádio. No Rio, cidade porosa nos termos de Bruno Carvalho e capital irradiante para Nicolau Sevcenko, conseguiu acessar uma candente vida cultural: conheceu os redutos do samba da época como o Café Nice e atuou com os principais nomes do samba de sua época, como Ataulfo Alves, Bide, Marçal, Heitor dos Prazeres e outros. Foi também como sambista que Henricão participou de sua primeira película: It’s All True, de 1942, do cineasta estadunidense Orson Welles (1915-1985), no qual também atuaria Grande Otelo (1915-1993), sobre o qual o antropólogo Luís Felipe Hirano tem larga pesquisa.

As décadas de 1950 até 1970 foram marcadas pela atuação no cinema em filmes, em geral tendo seus personagens associados à escravidão nas companhias cinematográficas Vera Cruz e Maristela, como Sinhá Moça (1953), no qual atuou com Ruth de Souza (1921-2019); em peças teatrais diversas e participações em películas de Amácio Mazzaropi (1912-1981), nas quais as conotações raciais de seus personagens também eram marcantes como em Jeca e seu Filho Preto (1978).

Assim, como muitos artistas negros da primeira metade do século XX, Henricão associou sua carreira artística a outras formas de atuação profissional. Desde Itapira, Henricão sempre teve uma relação muito próxima com automóveis, tendo atuado como operador de trator, motorista particular, mecânico e vendedor de automóveis. Nessa última função, Henricão foi “reencontrado”- uma construção narrativa comumente associada a músicos populares com trajetórias entrecortadas por momentos de ostracismo- no final da década de 1970 pelo jornalista Júlio Moreno, então ligado ao jornal Folha de S. Paulo, na região central de São Paulo. Impulsionado por esse “recomeço”, com algum sucesso conseguiria retornar aos palcos musicais e a realizar novas atuações, então na televisão. Foi eleito o primeiro Rei Momo negro de São Paulo. Gravaria seu único LP em 1980, intitulado Recomeço, composto principalmente de canções das décadas de 1930 e 1940. Faleceria em São Paulo em 1984, tendo recebido homenagens na Câmara dos Vereadores, onde foi realizado o velório.

Esse breve relato das viagens desse paulista em busca de universos artísticos musicais, cinematográficos e teatrais permitiu vislumbrar as possibilidades de confronto das diferentes construções raciais e acerca da modernidade presentes nas cidades brasileiras onde se desenrolou a carreira de Henrique Felipe da Costa. Mais do que um “caso particular” pelo sucesso obtido ou “representativo” de outras trajetórias artísticas, sendo a “particularidade” e a “excepcionalidade” duas formas que marcaram o uso das trajetórias de vida em antropologia, a vida de Henricão observada em suas dimensões cotidianas (sempre complexas, como nos lembra Michel de Certeau) permite pensar o processo de montagem através do qual as memórias de um artista, de uma cidade ou de uma forma expressiva são constituídas.

*Bruno Pereira é doutorando em Antropologia Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do grupo de pesquisa Coletivo Artes, Saberes e Antropologia do CNPq. O artigo foi publicado originalmente no Jornal da USP

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