ELZA SOARES: MY NAME IS NOW

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Hoje, 8 de março de 2021,Revista Publicittà resgata texto de seu acervo, publicado no dia 17 de julho de 2015, como forma de homenagear neste Dia Internacional da Mulher duas grandes estrelas. Elza Soares, que segue dando lições de humanidade e dignidade em atos e canções, e Heloísa Antônia Franco que, hoje, do infinito, nos observa enquanto relemos seus textos, como o que republicamos in memoriam, compartilhando sua sensível visão de mundo. Já o filme Elza, my name is now, da diretora Elizabete Martins Campos, pode ser visto ou revisto hoje, às 21, no canal Curta!. Também está em cartaz na plataforma do Youtube para compra e/ou locação.

 

OUR NAME IS NOW

Por Heloísa Antônia Franco

“A carne mais barata do mercado é a carne negra”, essa carne oprimida que não para de agitar-se sob as dominações, de resistir a tudo o que esmaga e aprisiona e de, como processo, abrir um sulco na terra para fazer crescer outra justiça neste País e no mundo..

Elza não para, não sossega, é inquieta. Um furacão. Ela cria uma espécie de língua estrangeira. Usa um tipo de língua que é o tempo todo reinventada, gritada, revolucionada como um delírio histórico universal onde explicita com irreverência a podridão do mundo, com suas idiossincrasias, contradições, combates, perversões malvadas. Língua que nos arrasta para fora e na interioridade de uma certa cultura dominante: a do homem europeu, branco . Como nos diz Lawrence, “temos que acabar com nossos segredinhos sujos” e pensando com Deleuze, “temos que por fim aos juízos”.

Sob o olhar perspicaz da diretora, Elza é puro devir, é a Fênix, renascendo das cinzas de cada tragédia, renascendo do sol, da lua, do furacão, das tormentas, explosões, trovoadas, preconceitos, rejeições, violências cometidas contra “a carne mais barata do mercado, a carne negra”.

É o canto da Fênix ,o vôo da liberdade. Uma grandeza de voz que não quer calar neste corpo que já não aguenta mais… esse corpo que “vai de graça para o presídio, vai de graça para o subemprego, fazendo a história desse país no braço… Esse país que vai deixando todo mundo preto de cabelo esticado…”

Esse corpo que não aguenta mais ser massacrado, pisoteado. O grito que Elza traz na voz é uma orquestra musical que inventa um outro povo, uma nova luta, uma nova vida, um combate contra este olhar para o que é negro e escuridão. Combate entre todos que foram traídos, alvejados, separados, marginalizados, renegados a carne mais barata do Brasil.

Elza salta da lama e se eleva às forças ancestrais e cósmicas, aos orixás, as magias das feiticeiras, a todos os santos, a doçura de um eterno devir criança que traz em seu olhar e na voz com força profética angelical. “É dia de jogar flores no mar… é dia de dar presente para Iemanjá… vou pedir a Santa Clara para me ajudar…”
Traz um devir político na maior delicadeza que se exterioriza nas denúncias que Elza traça – my name is now.

Now com todo o preconceito ainda existente nos coloca cara a cara com o nosso nome agora, o que ainda trazemos no sangue de ancestralidade racista, seres apodrecidos pela sociedade. Como nos diz Baudelaire: “Cada um carrega um cadáver entre os dentes”.

O filme vai deixando todo mundo negro… na cor, na visão, no medo… na lama dessa escuridão falaciosamente preconceituosa. Mas a Elza Fênix não se fixa em nenhuma imagem… traz na carne o estrondo dos orixás, as trovoadas de Iansã , todas as facetas da lua, todas as tonalidades do sol, todos os movimentos oceânicos…

Traz na veia da garganta rasgando o sangue fluido no transe, no trânsito, na passagem em ato. Renasce a cada salto e vai construindo seu pensamento a partir das travessias que faz em suas experiências de vida pulsante e arte.
É o mar de todos! O mar para todos!

Esta tensão que vai sendo criada no documentário que é também música da melhor qualidade filmada e cantada vai invadindo nossas entranhas e fazendo vibrar uma força intensiva que brota dessa natureza animal que Elza traz na carne e neste olhar doce cheio de ternura e histórias, que é pura potência em ação fílmica.

Elza devém todos.
Elza multidão só ares.

A sua música é universal, fala de tantos povos excluídos… inventou sua música carregando água na cabeça e, hoje, dialoga com as multidões, mirando-se no espelho, ou nos espelhos dos olhares de tantos… O olhar vem sempre antes das palavras… “Eu não sou nada”, diz.

É da música que extrai o melhor de si. A sua alma musical universal que soa, ressoa só ares marítimos oceânicos…
Por isto Elza é ela por si só um instrumento musical vivo, em forma viva da cor mais barata do Brasil.

São muitas as tessituras que vão sendo tecidas em nós – a negritude – a vergonha – o preconceito em nós.

My name is now!!!!! Um convite para que nos transportemos para dentro numa mirada do que há de melhor e de mais miserável em nós. Sacode a poeira e dá a volta por cima.

“Eu te adoro, espelho!!!” “Fui acariciada pelas janelas que se fechavam quando eu passava” . As lágrimas que devolveram a inteireza só poderiam ser de Elza Soares.
E desse ser inteiro nasce um estilo de existir em que coloca a plateia num lugar especular, onde a pergunta pede uma resposta: Quem somos nós? O que queremos? Qual o quantum desta herança ancestral que nos habita? Parafraseando Nietzsche: “Quem quer em mim? O quê quer em mim?”

Our name is now!!!!!

Este filme esplendoroso nos convida a adentrar na nossa negritude, na miséria das sociedades e vai criando um outro que é o mesmo… desapropriado de sua alteridade. “Torna-te o que tu és”, como nos diz Nietzsche.

Num território de tantos gestos , Elizabete consegue trazer para a tela um mundo com todas as suas tonalidades de alma. E Elza é a atriz por excelência das multiplicidades de tonalidades musicais da melhor qualidade do Brasil. Como diz Goddard “o cinema mostra-nos um mundo que cabe em nossos desejos”. Somos o que queremos ser!!!! Renascemos a cada instante. “ Há sempre um lado que pesa e um outro lado que flutua. Tua pele é crua. É crua”, nos diz Otto.

Somos performáticos, nos transmutamos em muitos e não somos idiotas.

 

 

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