GALO E O CONTO DO VIGÁRIO DO EMPREENDEDORISMO

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A Folha de S. Paulo completou 100 anos no último dia 25 de fevereiro de 2021 e como parte das comemorações, procurando refletir sobre o nosso futuro comum, deu início à série “E Eu?” nas plataformas digitais, como o Youtube, onde minorias pouco representadas na mídia apontam problemas na relação com a imprensa. Para Paulo Lima, conhecido como Galo, entregador, uberizado, o comando das redações barra pautas progressistas. A importante entrevista na qual Galo dá uma aula real de macro e microeconomia, mostrando maior conhecimento que medíocres economistas como Paulo Guedes, que hoje ocupa a pasta de ministro da área, inspirou o colunista Eduardo Silva Bernadt, a escrever este artigo em que revela a face perversa do empreendedorismo. A falácia neoliberal para implodir o emprego e a remuneração dos trabalhadores. Veja o vídeo, leia o texto.

 

Por Eduardo Silva Bernadt

O vídeo com Paulo Roberto da Silva Lima (Galo) é feito e veiculado pela mesma Folha que emprestou seus carros durante a ditadura civil-militar; ditadura instaurada com o golpe de 1 de abril de 1964 e durou até 21 anos, até 15 de março de 1985, sob comando de sucessivos governos militares; para uso do DOPS – Departamento de Ordem Política e Social, que foi criado em 30 de dezembro de 1924 e extinto em 4 de março de 1983, e funcionou como órgão oficial de repressão e tortura dos governos militares. Fica, então, desenhado claramente que o mundo não cabe no simplismo do pensamento formado pelo melodrama de filmes e novelas, do vilão versus o bandido, e pela psicologia de empresa e ideologia neoliberal de reality shows.

Na incongruência entre simplismo com a realidade complexa do mundo, e ainda mais do Brasil, pessoas perdem a fé e desistem da política que é o caminho da transformação. E quando mais abandonada pelo povo, a política estará à serviço de seus corruptores que são os donos do dinheiro para que acumulem ainda mais capital, mas, na mídia e na boca do povo, só se fala em corrupção se tratando apenas dos corrompidos e como se fossem exclusivamente os políticos.

Não encontrei informações sobre a formação escolar de Paulo Roberto da Silva Lima. O que ele diz, parece-me estar baseado nos atravessamentos sensíveis de sua experiência e pode ser suficientemente pautado pelos conteúdos do ensino médio, ao passo que muitos universitários, acadêmicos e artistas não conseguem chegar a tal reflexão e atuação sobre a realidade.

Não é para acabar com a universidade e exterminar o artista – esse projeto é do atual ocupante fascista do Planalto. Não é para matar o doente afim de acabar com a doença. Não é para jogar a água fora da bacia com o bebê junto. É para promover o acesso à universidade e a todos os bens sociais. Os governos do PT tentaram promover acessos em vários setores da sociedade. O elitismo da pobreza brasileira que se acha rica, se manifestou e promoveu a retomada da exclusão efetivada com o golpe que derrubou a presidente Dilma Rousseff abrindo caminho às reformas neoliberais que tem o objetivo de aumentar o acúmulo de riqueza, ou seja, de promover mais miséria, sob o discurso enganador de promover o bem do povo, tal qual aquele discurso do Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do neoliberalismo brasileiro, que dizia: “temos de crescer o bolo para reparti-lo” e só os ricos ganharam.

— Mas, o PT… — Sim! De fato, não mudou as estruturas de poder que mantém as feridas histórias do Brasil, como, fundamentalmente, a reforma agrária e o elitismo econômico, que, sanadas, poderia corrigir as distorções de um país feito enquanto colônia de exploração e não de desenvolvimento e expansão. Mas, as coisas estavam andando sim. O muito pouco que fez os governos do PT, entre 2003 e 2016, levou à bons resultados em que todos desfrutaram, inclusive, e mais ainda, os golpistas.

Agora, com o neoliberalismo de Paulo Guedes, assistimos, mais uma vez, discursos sobre problemas reais da sociedade misturados à tantas outras questões que dizem ser de interesse do povo – e parte do povo, o suficiente para elegê-los, acredita que são sim problemas de seu interesse – para justificar reformas que, de fato, não sanam interesses do povo. As reformas trabalhistas de Temer e do lema fascista “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, prometiam mais emprego e crescimento econômico porque desoneraria as empresas liberando recurso para investimentos, mas, tivemos desemprego recorde, encolhimento do PIB e fechamento de empresas. A reforma previdenciária prometia acabar com privilégios e sanar uma tal de fechamento das contas; não acabou com privilégios como os dos militares e alto escalão do judiciário, ao contrário, foram ampliados, enquanto houve trabalhadores que aceitaram e apoiaram a reforma previdenciária acreditando no discurso unânime da mídia patrocinada por bancos que querem vender previdência privada, de que estariam protegendo seu futuro. E não há nada que esteja ruim que não possa piorar, vem aí as reformas tributárias e administrativas sob a falácia marqueteira “menos Brasília e mais Brasil”.

O Galo de Briga, como é conhecido Paulo Lima é muito inteligente! E ainda mais inteligente pela empatia! Porque, ele se reconhece trabalhador e se reconhece em seus semelhantes! Que empatia! Tal como o Jesus verdadeiro que não se identifica com as pregações que podem ser assistidas nas muitas igrejas da teologia da prosperidade, da condenação pelo pecado, do controle pelo medo e do charlatanismo pelo dinheiro. — Comentário que faz necessário sim, pois estamos em um pais onde as pessoas se dizem cristãs e votam cegamente em quem os líderes religiosos mandam votar fazendo número suficiente para decidir uma eleição.

Espero que mais pessoas se despertem como despertou o Galo de Briga e que o povo se faça desperto. Que o povo, o trabalhador, entre em tudo e transforme tudo. Mas, o povo está perdido, elegendo e apoiando fascista mesmo diante à sua própria danação. Especialmente, quanto aos trabalhadores artistas, mesmo sem emprego, sem patrocinadores, trabalhando as próprias custas, com ou sem lei de incentivo, ainda seguem reproduzindo toda a ideologia do patrão e do neoliberalismo, fazendo entretenimento ou intelectualismo de linguagem distante do povo e sem nenhum esclarecimento. Mas, ao contrário, temos que aproximar do povo sem populismo e sem banalização.

Mas, para dificultar qualquer despertar, é provável que atitudes exemplares como Galo de Briga sejam ridicularizados, como sempre, pelas táticas da direita; como, por exemplo, pela a tática do moralismo, tal como acusam Lula de “cachaceiro”, ou como a invenção do “kit gay” e da “mamadeira de piroca”; ou, pela tática do elitismo, já que quase toda classe média brasileira e do mundo não se reconhece trabalhador; ou, pela tática do puro ódio que leva pessoas a condenaram até os direitos humanos; e assim por diante, fazendo a cabeça de leitores que decidiram eleições contra si mesmo acreditando estarem fazendo o bem.

A luta de classes, ainda não está superada, e o capitalismo em sua fase neoliberal ainda é a origem e aprofundamento dos maiores problemas do mundo. O avanço do capitalismo desde a revolução industrial foi dividindo a classe dos trabalhadores por meio do surgimento dos trabalhadores com CNPJ, que exploram outros trabalhadores, e pela discrepância dos salários, em que há alguns supersalários, que diferencia o acesso ao consumo promovendo a falsa ideia de segmentação, a confusão e os desencontros entre trabalhadores, afinal trabalhadores unidos… Além dessa desarticulação, cada vez mais, nos ocupamos em militar, quando militamos, nos efeitos do capitalismo.

Ainda, se acredita em liberalismo ou no seu endurecimento que é o neoliberalismo? Acredita nas escolhas falsas de votar entre direita e esquerda? Ou, na “liberdade” para se danar sozinho com problemas estruturais acreditando que se deu mal na vida por “falta de competência” ou “incapacidade pessoal”? Não há escola conforme os liberalismos, existe reconhecimento de nosso lugar e papel no mundo. A situação é de guerra, e você já se reconheceu trabalhador e, portanto, qual é o seu lado na história?

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