OS DESAFIOS DO JORNALISMO NA ERA DIGITAL

0

GRUPO DE PESQUISA EPC/PUC-RIO*

As plataformas digitais Google e Facebook se configuram hoje num duopólio na internet. Conforme elas foram crescendo e desenvolvendo novos serviços, também foram copiando e comprando concorrentes que poderiam ser obstáculos para o seu crescimento e domínio de mercado. Nada de novo no front ocidental. Com a capa das inovações tecnológicas, as plataformas apenas seguem o conhecido roteiro do nosso mundo capitalista, das empresas e pessoas que querem dinheiro e poder e, para isso, estão dispostas a passar por cima de detalhes tais como a ética. Se não tem um policial olhando, por que não posso ultrapassar os sinais vermelhos e andar a 120 quilômetros numa via com velocidade máxima de 60 km, mesmo com o risco de ferir alguém no caminho?  Ué, não entendi! Ainda mais se meu carro está com placa de outro país.

Em algum momento, pessoas começaram a se dar conta de que seus dados estavam sendo usados para que essas empresas lucrassem, sem que elas fossem avisadas ou, quem sabe, fossem pagas por esse uso. Num momento ainda anterior, pessoas também se deram conta de que problemas que viveram no passado e já superaram estavam em eterna exposição ao público na busca do Google. O mesmo se passou com veículos de jornalismo. Aos poucos eles foram se dando conta que seus direitos autorais e sua lucratividade estavam indo para outros lugares fora do seu controle. A fase casa da mãe Joana foi terminando, com pessoas e empresas indo à Justiça contra as plataformas e, lentamente, legislações foram criadas, primeiro na União Europeia, depois no Brasil. Jogou-se luz sobre o que de fato são essas plataformas, para além do lado bom, que são as vantagens de pequenos produtores de conteúdo terem aonde distribuir seu trabalho. Desculpas como as de que as sedes das empresas não eram no Brasil (como se sabe, as quatro grandes plataformas, Google, Facebook, Amazon e Apple, são norte-americanas) e por isso não estavam sujeitas à legislação daqui foram olhadas com lupa e mostraram-se claramente esfarrapadas.

No relatório Plataformas digitais e a relação com o jornalismo, o grupo de pesquisa Economia Política da Comunicação da PUC-Rio (EPC PUC-Rio) explora a relação das empresas de jornalismo com as plataformas Google e Facebook, a qual vem sendo de aproximações e recuos, de acordo com a visão de seus mercados que essas empresas têm em cada momento. O objetivo é trazer informações e uma análise crítica sobre o contexto de plataformização em que o jornalismo está inserido hoje, o qual, por sua vez, está contido no contexto maior do capitalismo. Nossa intenção é ajudar nas reflexões sobre o jornalismo brasileiro de hoje, mostrando os personagens dessa história a partir de sua raiz, para que ninguém precise esperar inutilmente que um pé de caju dê manga.

A internet trouxe a disrupção do modelo de negócios (de financiamento principal pela publicidade) dos veículos tradicionais, trazendo uma miríade de novos lugares onde anunciar. O bolo publicitário, antes dividido basicamente em TV, rádio, jornais, revistas e mídia outdoor, teve a oportunidade de se espalhar por sites, perfis de influenciadores digitais e nas próprias plataformas digitais. Com toda essa concorrência, as empresas jornalísticas tiveram que derrubar os preços para anunciantes, incluindo os anúncios em seus portais e sites na internet, ou não conseguiriam mais anunciante algum. Isso piorou muito com Google e Facebook passando a ser intermediários entre empresas jornalísticas e público, com anúncios indo diretamente para as plataformas.

Para entendermos o mundo atual da plataformização do jornalismo, é preciso entender o papel fundamental da audiência e suas medições (as temíveis métricas), que se tornaram uma moeda de troca com os anunciantes de uma forma nova e muito mais acelerada que no passado, e é disso que trata o primeiro capítulo do relatório. Em seguida destrinchamos Facebook, Instagram e Whatsapp; Alphabet, Google e Youtube; e Twitter, incluindo a relação desses meios com o jornalismo, especialmente o do Grupo Globo, por ser o maior grupo de comunicação do país. Por fim trazemos estudos de caso da plataformização do jornalismo comunitário, sobre as plataformas chinesas e sobre a BBC Brasil.

Chegamos a muitas conclusões com esse estudo, e uma delas é que precisamos de uma real distribuição de renda neste país, o que tornará possível que o próprio público sustente iniciativas jornalísticas que de fato atendam ao interesse público e à democracia.

*O texto é um resumo do relatório do Grupo de Pesquisa Economia Política da Comunicação (EPC) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO). O relatório completo você acessa aqui.

 

 

Share.

About Author

publicitta

Leave A Reply