FAKE NEWS PUBLICADA EM JORNAIS ABRE DEBATE SOBRE ÉTICA

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Maria Esperidião*, do Portal Abraji

No dia 23.fev.2021, um grupo de médicos defensores do suposto tratamento precoce contra a covid-19 publicou um informe publicitário em ao menos oito jornais impressos brasileiros, com informações falsas sobre medicamentos já classificados pela ciência como ineficazes no enfrentamento à doença. O manifesto Médicos pela Vida provocou um debate sobre ética entre os jornalistas. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) ouviu especialistas a respeito do impacto do anúncio sobre o trabalho da imprensa.

Além dos dois maiores jornais do país (Folha de São Paulo e O Globo), seis outros veículos aceitaram publicar o informe publicitário (Jornal do Commercio, Estado de Minas, Correio Braziliense, Correio, O Povo e Zero Hora).

No momento em que o Brasil atinge a marca de 250 mil mortos pelo novo coronavírus, em um contexto em que a desinformação ganhou corpo impulsionada pelas facilidades da conexão digital, pela capilaridade das redes e pela identificação e fácil delimitação dos públicos de interesse nas plataformas sociais, estudiosos apontaram que limites éticos foram cruzados. 

O anúncio desinformativo abriu caminho também para discutir a perda de credibilidade do jornalismo durante um período classificado pela Organização Mundial da Saúde como uma “pandemia da desinformação” (infodemic, em inglês).

Para Eugênio Bucci, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e autor de livros sobre ética do jornalismo, o texto não ajuda no combate à pandemia e ainda dá fôlego à campanha obscurantista contra a imprensa e a ciência.

“Só o que se pode depreender dele é um efeito (intencional ou inconsciente) de um vírus de desinformação que, inoculado nas páginas dos jornais de forma traiçoeira e maliciosa, tenta semear o descrédito sobre o trabalho de cientistas e repórteres”, afirma. 

Além de fazer crer que o novo coronavírus é “curável” ou “evitável” pelo uso de medicações “preventivas”, Bucci avalia que a campanha publicitária é o segundo capítulo de um projeto mais amplo. O jornalista lembra do recente chamamento de uma “Ordem dos Advogados Conservadores do Brasil”. O movimento conclamou os cidadãos a delatar e processar “políticos, artistas e professores” que critiquem o presidente, seus familiares e ministros.

“São iniciativas que querem minar a credibilidade da imprensa e a liberdade de expressão e de investigação científica. São iniciativas que têm, entre si, um vínculo profundo, seja orgânico, proposital ou não deliberado. As duas iniciativas pertencem à mesma vaga histórica, que carreia fanatismo, reacionarismo, negacionismo e clamores por tirania”, conclui Bucci.

Rogério Christofoletti, cofundador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), da Universidade Federal de Santa Catarina, chama atenção para outro ponto.
 
“A publicação do anúncio mostra um descontrole preocupante dentro das empresas jornalísticas. O departamento comercial não dialoga com a redação e acaba aceitando anunciantes, cujos interesses contrariam, às vezes, os interesses do próprio jornal. Se o veículo defende o combate à desinformação, não pode publicar nem notícia, nem anúncio que contribua com a desinformação. É uma questão de coerência, tem a ver com credibilidade e ética. O público espera que os jornais forneçam informação e, quando isso não acontece, um pacto de confiança se desfaz. Os leitores cobram, exigem”.
 
Perguntado sobre exemplos semelhantes fora do Brasil, o professor comenta  sobre outro caso emblemático que gerou discussão e desconforto. Em 2015, o jornal francês Le Figaro foi criticado por ter publicado a foto de um menino sírio morto numa praia turca, enquanto na página seguinte apareceu um anúncio da Gucci com uma modelo espraiada na areia.
 
“O espelhamento das imagens causou indignação e revolta pela ‘coincidência’. Não foi coincidência. E acredito que nem tenha sido perversidade intencional do jornal francês. Foi descontrole, inaceitável também. Esse tipo de erro equivale àquelas denúncias de pelos de animais encontrados em alimentos! As pessoas deixam de consumir aquelas marcas. A versão on-line da notícia foi rapidamente modificada e nos priva desse desconforto. Mas o leitor não esquece!”
 
Repercussão internacional

Ao mesmo tempo em que estudos investigam se as causas de uma erosão na credibilidade do jornalismo são resultado direto da desinformação, o “manifesto”  brasileiro foi destaque na publicação da LatAm Journalism Review, revista do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas.

A pedido da Abraji, dois especialistas internacionais avaliaram as consequências do “fake ad” brasileiro. James Ball, vencedor do Pulitzer de 2014 e curador da organização Ethical Journalism Network, faz um alerta:
 
“O jornalismo depende da confiança do público e conquistamos isso garantindo que somos fontes de informações confiáveis ​​- e trabalhando para combater a desinformação. Não pode haver tempo mais importante para essa função pública do que durante uma pandemia. Precisamos ser o mais cuidadosos possível para garantir que todas as informações que fornecemos ao nosso público sejam confiáveis”, sublinha.
 
Para o jornalista britânico, o momento exigiria cuidados redobrados por parte do setor comercial:

“A publicidade é e deve ser independente do conteúdo editorial – mas há uma dúvida real se deve haver um obstáculo maior para a aceitação de anúncios potencialmente enganosos durante uma crise de saúde pública”.
 
Bruce Shapiro, professor de Ética da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, também destaca a excepcionalidade do momento:
 
“Quando o assunto é covid-19, ou seja, uma questão de vida ou morte, as organizações de notícias têm a responsabilidade de promover informações de saúde pública baseadas em evidências e fatos, e não servir como plataforma para espalhar notícias sobre remédios falsos ou tratamentos perigosos e não controlados. Essa obrigação ética se aplica tanto à publicidade, quanto às notícias relatadas.”
 
Shapiro defende que, embora o conteúdo publicitário pago não seja uma reportagem, deve-se exigir padrões éticos – especialmente quando se trata da crise sanitária mais grave em 100 anos.
 
“Jornais e sites de notícias contam com a confiança de seus leitores. Os anunciantes sabem disso, e é por isso que gastam dinheiro para aparecer ao lado de histórias apuradas pelos jornalistas. Conteúdo pago promovendo tratamentos covid-19 falsos – mesmo se rotulado como publicitário – explora essa confiança, confundindo o público sobre a ciência legítima, minando a saúde pública e custando vidas”.

Maria José Braga, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, acredita que o anúncio divulgando tratamentos sem eficácia deveria ter despertado um debate sobre o papel dos conselhos federal e regionais de medicina:

“Os jornais não podem se eximir da responsabilidade, afirmando se tratar de informe publicitário pago […]. Com o anúncio, ajudaram a disseminar informações falsas, que atentam contra a saúde pública. Mas é preciso alertar ainda para a omissão das entidades médicas, que se calam diante da atuação comprometedora dos médicos. Esses conselhos também precisam ser chamados à responsabilidade, em especial nesse momento de agravamento da pandemia.”

À Folha de S. Paulo e ao site Congresso em Foco, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) declarou não ter uma posição específica sobre o caso. “Mas defendemos, naturalmente, a liberdade de expressão, que vale também para essa nota [anúncio]”.

O que fizeram os jornais e as agências de checagem 

No dia em que o manifesto foi publicado, a Folha de S. Paulo também colocou no ar uma matéria produzida pela Agência Lupa, apontando que os médicos usaram informações falsas ao citar hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e outros medicamentos como eficazes para o tratamento precoce contra a covid-19. O texto ressalta que, embora o manifesto saia em defesa da eficácia desse tratamento, “não há qualquer estudo de metodologia rigorosa que tenha chegado a essa conclusão”.

O site de checagem Aos Fatos identificou que as plataformas usadas para embasar o manifesto adotam metodologias duvidosas, como é o caso dos sites c19study, ivmmeta, hcqmeta, c19ivermectin e c19legacy, que, “sem métodos claros, análises fundamentadas aparecem em meio a outras sem o mesmo rigor, como pesquisas preliminares ou que não foram revisadas por outros cientistas”. Há ainda pesquisas que tiveram seus resultados alterados em favor do uso das drogas defendidas pelo manifesto. 

Jornal do Commercio ouviu especialistas sobre o caso, que reafirmaram “o perigo da utilização massiva de drogas sem eficácia comprovada contra o coronavírus”, algo já sinalizado por entidades de saúde em todo o mundo. 

Em editorial, a Agência Lupa afirma que se sente no dever de rebater mentiras e que “jornais são e continuarão sendo peças vitais na luta contra a desinformação, mas precisam, assim como as plataformas de redes sociais, rechaçar anúncios mentirosos, mesmo que isso vá contra seus interesses financeiros”. 

Publicidade abusiva

A Abraji não conseguiu apurar se os diretores de redação foram comunicados do anúncio antes da publicação. 

Para Caio Túlio Costa, ex-secretário de Redação da Folha e primeiro ombudsman da imprensa brasileira, há um sinal claro de que o departamento comercial dos jornais falhou. 

“Foi falta absoluta de atenção das equipes comerciais. Era o caso de consultar o Conar, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária que, historicamente, sempre fez recomendações de não publicar medicamentos com promessas falsas. Ao derrubar essa tentativa, o caso seria denunciado como publicidade abusiva. Se o conteúdo não foi comunicado à redação,  a responsabilidade é do departamento comercial”.

Procurada pela Abraji, a assessoria de imprensa do Conar afirmou que não opina sobre peças publicitárias. E quem o  faz é o conselho de ética  – mesmo assim, só após decisão colegiada.

*com colaboração de Paula Beatriz Neiva

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