PLAYLIST Djdu.K: MEMÓRIA

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Por Eduardo Silva Bernardt

O ser humano é feito de: mais ou menos 60% de água, 23% de carbono e um tanto de outros minerais; células, tecidos, órgãos e sistemas, consciência, inconsciente, razão, paixão, linguagens, mitologias, história, organização social, sexo, cultura… e Memória.

Na mitologia grega a Memória está personificada na titânide Mnemosyne, filha do Céu e da Terra, irmã do Tempo; é protetora da História e inspiradora das Artes através de suas filhas, as nove Musas; carrega o bastão da sabedoria; e concede imortalidade através da memória perpetuada.
Para São Tomás de Aquino, a Memória é, juntamente com a Inteligência e a Providência, parte da virtude da Prudência (o saber decidir) – e como andam em falta!

A Memória pode ser estimulada pela arte da mnemotécnica desenvolvendo seu potencial prático em diversas finalidades que vão do estudo ao trabalho e ao divertimento. Pode se dar em registros e sistematizada em algum modo específico, como livros, cadernos, diários, discos, fitas magnéticas, desenhos, fotos, pinturas, projetos e etc, podendo ser armazenada em espaços físicos, como uma biblioteca, ou virtualmente. Se reduzida ao utilitarismo, não passa de um banco de memória desprovida de função à humanidade; enquanto a memorabilia, ou o souvenir, é aqueles objetos que arremetem a Memória em recordações de fatos significativos causadores de emoções e sentimentos, e atribuidores de sentido e significado à vida; — se não, é só consumismo e acúmulo. Não apenas por objetos, a Memória, com suas dádivas ou prejuízos, pode também ser evocada por cheiros, lugares, cenas, sons, sabores e todo tipo de experiência. Portanto, a preservação ou destruição das coisas materiais, ou imateriais, ligadas à Memória, é fonte de prazer, dor e poder.

A Memória pode nos levar ao que, em língua portuguesa, chamamos de saudade, a “lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las”; ou o “desejo de um bem do qual se está privado”; e assim a saudade é objetivamente definida pelos dicionários e tão poeticamente significada pelos artistas. — Aí! Que saudades do Brasil.

No filme de ficção científica neo-noir Blade Runner (O Caçador de Androides) de 1982 dirigido por Ridley Scott, temos um futuro distópico que se passa no ano de 2019 onde humanos artificiais, chamados replicantes, são fabricados para trabalhos insalubres na colonização de outros planetas; aqueles que se rebelam e fogem para a Terra são caçados; porém, nas voltas que o mundo dá, a caça acaba salvando a vida do caçador. Com esse enredo, o filme nos mostra que é a Memória que promove alguma humanidade.

De tudo que se pode desdobrar do assunto Memória, entre lembranças, lapsos e conexões, finalizo acrescentando… o que era mesmo? …. Ah! Mnemosyne permite reconectar com a origem de todas as coisas estabelecendo sentido e significado, o que é função de uma religião autêntica, haja visto que, conforme Jung, a palavra religião deriva de religio que decorre de religare, “religar, tronar a encadear”, mas, religião também deriva de religere, “examinar novamente, repensar”. Conforme o analista Eugene Monick, religar e relembrar “liga religião à psicanálise, a disciplina que resgata experiências pessoais reprimidas” e, quando as lembranças e suas revisões são conectadas em questões do momento presente, é produdo efeitos terapêuticos. Assim, pelo amálgama entre religião e psicanálise, a memória tem função de cura.

P.S. O presente assunto surge do anuncio em que um amigo se colocou na intenção de vender sua coleção de discos de vinil, coleção que participou da minha formação, e eu protestei alertando-o pela perda de em sua pessoa e naqueles que se relaciona.

 

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1 comentário

  1. Avatar
    JORGE LUIZ QUEIROZ PEREIRA on

    Boa tarde Edu, parabéns pelos textos.

    Construídos com referências que vão desde o clássico ao pop, revelam uma característica que é bem sua do didatismo.
    Show!

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