MESTRE LOTINHO PARTIU PARA O INFINITO

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Por Carlos Franco

O samba uberlandense está silencioso nesta quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021. Depois de 85 anos pulsando no ritmo cadenciado das canções, o coração de Arlindo Oliveira Filho, o mestre Lotinho, parou de bater. O infarto na cidade devastada pelo coronavírus, que contabilizava a perda de 1.013 vidas de março até hoje, colocou fim a uma importante dinastia do samba.

Foi mestre Lotinho, pai de quatro filhos, o fundador da primeira escola de samba da hoje segunda maior cidade de Minas Gerais, depois da capital Belo Horizonte, a Tabajara Sociedade Recreativa Escola de Samba, que criou, com antigos parceiros, em 1954 no bairro do Patrimônio. A ideia, segundo relato de Antônio Sacco, professor, amigo e parceiro de mestre Lotinho, teria nascido nas mesas do bar José do Patrocínio, na Vila Osvaldo, mais conhecido como “Caba roupa” por ser de chão batido, e onde os negros se reuniam para cantar e dançar e, assim, acabavam com suas roupas.

Antes, nas décadas de 1930 e 1940, o jovem Lotinho participara do rancho carnavalesco Tenentes Negros que com o Turuna e o Flor de Maio buscavam romper, no período momesco, o preconceito racial e econômico que sempre foi forte e arraigado na cidade até os anos 1980, quando o já famoso astro do cinema Sebastião Prata, o Grande Otelo, e seus familiares não eram bem-quistos em clubes de elite como o Praia Clube e o Uberlândia Clube.

Antônio Sacco relata que um dos detalhes mais curiosos dos Tenentes Negros (foto abaixo), segundo lembranças de mestre Lotinho, era a sua ousada coreografia. Alguns componentes, fantasiados de diabo, usando tridentes como adereço de mão, ameaçavam invadir a calçada da direita da avenida Afonso Pena, então reservada aos brancos. Eles se assustavam, corriam e a folia estava armada. Também faziam evoluções na frente do  Cine Uberlândia, onde os negros só podiam ter acesso à galeria, e ainda assim trajando ternos apesar do calor sempre senegalês do cerrado.

No carnaval, os ranchos abriam espaço para que sambistas se tornassem reis, ainda que por quatro dias, e cabrochas e passistas fossem elevadas à condição de rainhas neste reino sem preconceitos de Momo. Só que, em 1946, ranchos como o Tenentes Negros deixaram de desfilar, perderam espaço e componentes, até que um grupo de músicos, negros, como Lotinho que era crooner em rádios da cidade como a Difusora, se uniram para criar a primeira escola.

FOTO: ARQUIVO MUNICIPAL DE UBERLÂNDIA

O nome ele tomou emprestado da famosa orquestra carioca do maestro Severino Araújo, a Tabajara, que abrilhantava os programas de auditório da Rádio Nacional. Lotinho não perdia um, pois como crooner eram as músicas executadas na rádio das rainhas do rádio e dos reis da voz, as mais pedidas pelo público, a elite que tinha rádio em casa e aqueles que em bares pés-sujos e puteiros na região da atual Avenida Monsenhor Eduardo, que  homenageia um dos mais preconceituosos religiosos que a cidade já teve, se uniam para ouvir as ondas da rádio Nacional.

Coincidentemente, o nome Tabajaras, de origem tupi, tem tudo a ver com a luta dos grupos negros de carnaval numa cidade onde o preconceito é estrutural e arraigado. Na língua indígena tawa quer dizer aldeia e yara senhor ou senhora, então nessa aldeia de uma dinastia de senhores se senhoras o samba se fez e criou raízes.

O bairro em que a escola nasceu, o Patrimônio, foi abrigo de escravos e negros fugidos nos primórdios do Sertão da Farinha Podre, denominação do território ocupado por João Pereira da Rocha. Hoje, esse mesmo bairro que ficava às margens do córrego São Pedro, afluente do rio Uberabinha e que acabou por render aos seus moradores outra denominação, a de pés vermelhos (porque os sujavam para atravessar o córrego e chegar ao centro, hoje bairro do Fundinho), e ao povoado o nome de São Pedro do Uberabinha, não é mais o mesmo, nem sequer território de resistência cultural. Esse território negro, que abrigava além da Tabajaras, os terreiros de umbanda em que pretos velhos sempre pregaram a resiliência e a fé num mundo melhor para todos, não resistiu à especulação imobiliária, sucumbiu como o coração de mestre Lotinho.

E como todo nobre, Lotinho deixa um importante legado, importantes canções como a que postou neste dia funesto um de seus parceiros, o Antônio Sacco. A música revela a alma sensível que agora integra a elite do samba na eternidade.

OUÇA A HOMENAGEM DE ANTÔNIO SACCO AO MESTRE LOTINHO, INTERPRÉTE DO SAMBA. EM SEU CURTO DEPOIMENTO, SACCO RESGATA OS PARTICIPANTES DA GRAVAÇÃO:

 

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