AS MARRETADAS DO PADRE CONTRA A INTOLERÂNCIA

0

Por Yume Ikeda, de Tóquio

As imagens que chegam do Brasil no exterior nos últimos três anos são de completo absurdo. Revelam sempre um ódio injustificado do homem pelo homem. São flagrantes de barbáries em série que, mais do que envergonhar brasileiros e brasileiras, como eu, que residem em outro país, nos deixam preocupados, para dizer o mínimo. 

Foi alentador, portanto, ver a imagem digna do padre Júlio Lancellotti, pároco da igreja de São Miguel Arcanjo, na Mooca, na Zona Leste paulistana, dar marretadas contra a intolerância neste dia 2 de fevereiro de 2021, quando o Brasil  celebra Nossa Senhora dos Navegantes e as religiões africanas o orixá que rege as águas do mar, Yemanjá.

Marretadas. Abençoadas marretadas em pedras que foram instaladas debaixo de viadutos como o Dom Luciano Mendes de Almeida, na Avenida Salim Farah Maluf, uma das mais movimentadas da Zona Leste, para evitar que mendigos e moradores em situação de rua ali possam usufruir de descanso ou mesmo fazer suas necessidades numa metrópole que nunca se preocupou em construir banheiros públicos e menos ainda em criar condições para uma vida digna aos menos favorecidos.

De um lado, a foto revela a humanidade do padre e de, outro, podemos ver o prefeito Bruno Covas dando mostras claras e evidentes de  que humanidade  não é algo que se transmite via DNA, pois seu pai, Mário Covas, sempre demonstrou, como homem público, profundo respeito pela vida humana, O respeito e o carinho que os mais simples tiveram pelo próprio Bruno Covas nestes tempos sombrios em que ele enfrenta o câncer. 

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, em brilhante coluna assinada por Leonardo Sakamoto, diante da imagem de dignidade do padre Júlio Lancellotti, a Prefeitura emitiu nota informando que já tomou as providências para retirar as pedras higienistas e preconceituosas dos viadutos. Nota à imprensa que procura, como recomenda os manuais de crise, amenizar o ato que, não fosse contestado dignamente, permaneceria inalterado e até conquistaria os aplausos daquela elite paulistana tão atrasada quanto nefasta bem como dos veículos de comunicação que a representa.

Obrigada, padre Júlio Lancellotti por sua honradez e dignidade. Em tempos de pandemia, solidariedade é uma palavra chave e ímpar. O evangelho de Cristo é vazio sem ações e sua rebeldia nos traz de volta aquele Cristo vivo que expulsa os vendilhões do templo para proclamar que o amor ainda vai prevalecer sobre o ódio. O ódio que a Prefeitura expressou em pedras e que o senhor, padre Júlio, rompeu com marretadas.

Obrigado por tornar vivo o Cristo e o seu evangelho da tolerância e do amor ao próximo.

Foto: @peJulio/Fotos Públicas

Share.

About Author

publicitta

Leave A Reply